ORÇAMENTOS

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 Tem sido muito particular, este ano de 2013. Ainda não tive nenhum trabalho desde Janeiro e as duas facturas que passei, lá para Março, referiam-se ainda a projectos do ano passado, que foram concluídos neste primeiro trimestre. Na minha pasta «Orçamentos 2013» – que eu cá sou organizada – encontra-se apenas um; datado de Junho, para a manufactura de um painel em cerâmica para o Faial, do qual entretanto nunca mais tive notícias e quer-me bem parecer que já ficou em águas de bacalhau.

Contrariamente ao que é habitual nestes longos períodos – que é estar angustiada – tenho aproveitado o tempo todo para investir nos meus projectos pessoais em cerâmica e também aqui na oficina; tenho trabalhado imenso nas minhas peças, tenho feito muitas leituras e remodelei o espaço todo aqui dentro. Tem sido um ano muito produtivo; como eu costumo dizer, um ano só para semear.

Não sei o que é que se passou agora, mas desde que começou Setembro, as coisas começaram a mudar, a mexer. De repente tive três pedidos de orçamentos para fazer, tanto de conservação e restauro de azulejos como de manufactura de réplicas; dos quais dois foram daqueles para entregar quase no dia seguinte, cheios de cálculos e coisas para pensar – trabalhos para alguns meses, com uma grande equipa. De modo que nestes últimos dias tenho andado às voltas com a papelada, as contas e o nó na barriga.

Na prática está tudo igual – fazer orçamentos não é ter os trabalhos; é só uma trabalheira muitas vezes sem retorno, nem sequer um «recebemos, obrigada». Mas já é qualquer coisa a acontecer. E se tudo acontecer, vai ser tudo ao mesmo tempo, como é costume. E aí, estarei bem tramada.

M’HAMID EL GHIZLANE

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Observando  o mapa de Marrocos, M’Hamid el Ghizlane encontra-se no oásis onde a estrada nacional acaba, a cerca de 65o km a sudeste de Marraquexe; onze horas de autocarro – na melhor das hipóteses – doze ou mais para ser rigorosa. Dali para a frente, que é como quem diz, para todos os lados, está o deserto e quem vai até M’Hamid é por que quer entrar no deserto.

A povoação que vem assinalada no mapa é a nova M’Hamid el Ghizlane. Trata-se de uma aldeia com pouco interesse e muito menos beleza – está construída sob um molde urbanístico qualquer, que não é dali; espraiada à torreira do sol. A maioria das casas são feitas em tijolo de betão, não há árvores nem sombras e é impossível andar nas ruas largas durante as horas de mais calor – que são durante quase todo o dia, todos os dias do ano. Nem mesmo o rio Draâ, ali à sua beira, consegue refrescar o ambiente; o seu leito largo encontra-se totalmente seco (um dó!) e ao que parece a última vez que se viu água por ali foi há dois anos, quando se abriu a represa existente mais acima, perto de Ouarzazate e que serve para alimentar os campos de golf lá construídos. Nas casas da nova M’Hamid passa-se calor e muitos dos seus habitantes, no verão, mudam-se para as casas da família que ainda se mantêm na aldeia antiga e que são mais frescas.

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Um dos motivos que levou a maioria das pessoas a abandonar a velha M’Hamid el Ghizlane – a povoação mais importante daquele oásis, porta de entrada e saída das caravanas que  vinham e iam para o deserto; entreposto cujo mercado reunia viajantes e comerciantes vindos de todos os lados –  foi a inexistência de electricidade e água canalizada, que só agora ali estão a chegar. Outro talvez tenha sido a impossibilidade de circularem carros dentro da kasbah, toda construída em terra- a sua rua principal, a única que se vê em fotografia aérea, apresenta muitas zonas demasiado estreitas e as ruas transversais são como que corredores debaixo das casas; túneis escuros, compridos e frescos, iluminados aqui e ali por poços de luz vindos desde o exterior lá em cima, que acumulam também a função de ventilar cá em baixo. A circulação é feita a pé e de burro (e de motocicleta) e os drawas, os habitantes daquela região que sempre ali viveram e os que ainda ali vivem, estão mais do que adaptados àquela vida – a sua aldeia está sabiamente construída de forma a que ali se possa viver, defendida das amplitudes térmicas radicais que se fazem sentir.

Estive na velha M’Hamid el Ghizlane duas semanas e agora, acabadinha de chegar a Lisboa, parece que me ausentei por uns meses – ainda estou a fazer a agulha. O objectivo da minha ida foi o de participar no III Atelier de construção com terra, organizado pela associação espanhola Terrachidia. A ideia era restaurar a porta de entrada da kasbah, que se encontrava em mau estado de conservação e de preferência envolver a população local na sua recuperação, o que acabou por acontecer. Ali se fizeram adobes e se rebocou com terra. Aprendeu-se a construir em taipa e bebeu-se chá doce – demasiado doce! – nos intervalos, para recarregar as forças. Ali se tentou dizer os érres em árabe, com a garganta. Ali se suou, 40º; comeu-se pó. Muito pó, os olhos a arderem. Mediram-se ruas. Ali se viram noites estreladas sob a brisa morna do palmeiral. Ali se ouviu o chamamento para a oração, couscous à sexta-feira. Ali se subiu à duna mais alta, para ver o pôr-do-sol. Ali se falou e comunicou com a alma, com o sorriso. Cantou-se em francês. Viu-se e viveu-se outra realidade muito diferente, tudo tão forte, muito forte. Riu-se e chorou-se. Ali se está a começar a fazer um caminho. Alhamdulilah.

URGENTE

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Estive a pintar uns azulejos marmoreados, a manganês, que me pediram para colmatar umas lacunas num rodapé da escada do Grémio Literário, ali no Chiado. Queria ter feito em chacotas manuais, mas como a urgência era muita – como sempre – acabei por utilizar chacotas indústriais, com cerca de 7mm de espessura.  O desenho foi baseado no que já lá existe; apesar de haver uma grande variedade, esta pareceu-me ser a tipologia predominante. E depois de aplicados não se vai dar por nada.

31

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Como previsto, terminámos hoje a intervenção de conservação e restauro dos azulejos da escadaria principal do nº 31 da Rua Ivens, em Lisboa. Com a aprovação dos engenheiros e dos arquitectos responsáveis pela obra. Mais uma vez pude confirmar que a preservação dos azulejos antigos e originais é uma mais valia na reabilitação de um edifício – em muitos casos, talvez seja o único vestígio de autenticidade que se mantém.

PADRONAGEM POMBALINA

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Estamos finalmente a terminar a intervenção do nº 31, no Chiado, em Lisboa. O trabalho começou no verão passado e foi dividido por três fases: inventariação e separação de cerca de sete mil azulejos armazenados aleatoriamente na cave do edifício; selecção e montagem de paineis e posterior tratamento de conservação e restauro na oficina e, por fim, assentamento dos azulejos, preenchimentos e integração cromática in situ  – o que estamos a fazer agora. Amanhã damos o trabalho por concluído, depois da aplicação da cera microcristalina.

ESCACILHADO

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Hoje resolvi fazer uma pausa na minha nova produção azulejar e pegar numas chacotas manuais, que fiz há algum tempo – há mais de dois anos, para ser precisa. Tratava-se de manufacturar umas réplicas, de 14x14cm e com cerca de 1,3cm de espessura, que viessem a colmatar as lacunas existentes no revestimento azulejar do séc. XVII, da Igreja da Ota; tarefa integrada na intervenção de conservação e restauro dos azulejos, que começámos nessa altura e que entretanto ficou parada. E as chacotas ali ficaram, empilhadas, a secar e a ocupar espaço na prateleira. Até hoje. Estive agora mesmo a escacilhá-las – tal como as originais – e finalmente estão prontas para enfornar. Sim, porque secas, já estavam.

2013

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Ano Novo.

Tenho andado a fechar os assuntos de 2012 – a papelada está toda tratada e organizada, os backups estão feitos, as continhas todas pagas e só falta chatear-me com a JPP, a empresa que ainda me deve algum dinheiro de um trabalho acabado a meio do ano passado e do qual já paguei o IVA.

Agora é voltar à oficina. Não sei bem por que ponta começar; tenho sempre alguma dificuldade em retomar o ritmo e de repente fazer a agulha de passagem de uma fase muito agitada para outra em que não se passa nada. Talvez começar a limpar e arrumar o espaço, para depois poder recomeçar a minha produção cerâmica parada quase há dois anos – estou cheia de ideias novas e projectos que quero levar para a frente com a Tardoz. O que é bom, uma vez que não se adivinha muito trabalho para 2013.

ALICE JORGE E JÚLIO POMAR

Em Julho fui contactada pelo Departamento de Património Cultural e Divisão da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa para orçamentar uma intervenção de conservação preventiva num dos painéis – maravilhosos, todos! – da Av. Infante Santo, em Lisboa. Neste caso, tratava-se do painel modernista da autoria de Alice Jorge e Júlio Pomar; em lastimável estado de conservação, com várias lacunas que perfazem já cerca de 600 azulejos (que muito provavelmente se perderam) e outros quantos em risco de destacamento. A proposta visava o registo gráfico pormenorizado do estado de conservação do painel, o seu levantamento integral e posterior tratamento preventivo – consolidações e limpeza. Os azulejos seriam então guardados enquanto não se encontrassem os desenhos dos motivos em falta, as tais 600 lacunas.

Meti-me imediatamente em campo – o trabalho interessava-me, por todos os motivos: contactei quatro ou cinco empresas de andaimes; fui ver e fotografar o painel duas vezes e depois de perspectivar várias abordagens à intervenção e respectivos custos, entreguei o orçamento pedido. Mais tarde, foi-me comunicado que muito provavelmente, à minha proposta inicial, teria de acrescentar também a fase do restauro e assentamento integral do painel – os desenhos tinham aparecido e já se podiam fazer as réplicas. Que eu aguardasse, que no fim de Agosto receberia um novo pedido para execução de novo orçamento.

Como já vamos em meados de Setembro e ainda não me chegou nenhum pedido às mãos, entrei ontem em contacto com o Técnico responsável por este assunto, o qual me respondeu que «infelizmente as notícias não são as que todos nós gostaríamos; as finanças municipais retiraram a verba prevista para a intervenção, a qual será utilizada noutras necessidades.» Mas que talvez para o próximo ano… E pronto; assim está o estado do nosso património. Talvez para o próximo ano a lacuna existente seja já de 900 azulejos e o melhor seja mesmo acabar de vez com aquele painel e alcatroar a parede inteira – que para estradas há sempre dinheiro.

TRAVESSA DO TERREIRO A STA. CATARINA

  

  

Terminei a obra de restauro dos azulejos da fachada do nº 11 da Travessa do Terreiro a Sta. Catarina. A intervenção consistiu essencialmente na manufactura de cerca de 200 réplicas de azulejos, entre frisos e padronagem, que colmatassem a grande lacuna existente e que também substituíssem alguns azulejos que ali estavam e que não pertenciam àquele conjunto. Havia ainda – e continua a haver – algumas réplicas provenientes de uma outra intervenção anterior, que o dono da obra quis manter e ainda bem, porque estavam todas assentes em cimento, como já se estava mesmo à espera.

O resto da intervenção seguiu os procedimentos habituais: limpeza profunda, consolidações de falhas de vidrado, preenchimentos e integração cromática. Apesar da pouca segurança do andaime que me arranjaram e do escadote para acabamentos finais, acho que ainda assim ficou bem melhor do que estava. E espero que assim se aguente por uns bons anos.

FACHADA

Alvorada às seis e meia da manhã.

Ontem estive todo o dia com os ladrilhadores a assentar as réplicas que fiz para a fachada do nº 11 em Sta. Catarina. Às oito horas já lá estávamos os três e ainda bem, o trabalho foi bastante moroso e delicado – o prédio é muito antigo, nenhuma parede ou cantaria está de nível e havia muitos cortes a fazer nos azulejos, o que, sem a minha coordenação teria corrido mal. O Sr. Pedro já bufava por todos os lados e por mais que virasse cada azulejo que queria assentar, não havia meio de perceber onde é que tinha de fazer o corte e às vezes quase que nem eu. Entretanto os velhotes de cima não paravam de reclamar que tinham o tecto lá de casa numa miséria e que isso «eles» não querem saber; da janela da frente vinha um som irritante de tiroteio de um desses jogos modernos que agora para aí há; a carrinha tinha de ser constantemente chegada para a frente ou para trás, para poderem passar as da distribuição do gás e dos refrigerantes e o pó que nós fazíamos alastrava pela roupa estendida nos estendais lá da rua.

Mas conseguimos – às cinco e meia da tarde o Sr. Pedro deu o seu trabalho por concluído e eu ainda lá fiquei mais uma horita a limpar a fachada e a varrer a rua da sujidade que nós fizemos – e a outra que já lá estava no chão. Quando saí, fui beber uma mini ao café da esquina.