ESCOLA ANTÓNIO ARROIO

Acabei de chegar da Escola António Arroio, onde hoje fui dar uma palestra. Uma palestra informal, organizada por alunos do 12º ano, dentro da disciplina de Gestão das Artes e para alunos do 12º ano que estão a acabar o ensino secundário e se vêem na iminência de escolher um rumo – muitos deles, se calhar, um bocado perdidos, tal como eu estava quando acabei o 12º ano. Fui convidada na qualidade de ex-aluna da escola e a ideia era falar sobre o meu percurso desde que de lá saí. Tive plateia cheia e a coisa correu bem; mostrei fotografias do meu trabalho e estava muita gente atenta e interessada, houve muitas perguntas e respostas sobre cerâmica e principalmente, sobre conservação e restauro de azulejos. E também sobre os prós e os contras de se ser trabalhador independente. Foram quase duas horas de conversa – que eu não me calo – e acabou com uma salva de palmas. Saí de lá satisfeita e, ao que parece, eles também. Obrigada pelo convite!

BARALHADA

Confesso que estou a ficar baralhada com as previsões meteorológicas. Aproveitando a deixa que hoje iria chover – o que me pareceu normal, depois do dia de ontem -, avisei a minha equipa para ninguém ir para o Museu Militar e fui, carregada com o meu guarda-chuva, ver um trabalho para o qual fui contactada. Trata-se de uma pequena fachada em azulejos, a precisar de restauro, num pequeno prédio lisboeta, a precisar de uma pequena intervenção – enfim, um trabalho à minha escala.

São agora três da tarde e ainda não choveu, o que me deixa levemente enervada. Digo a mim mesma que tomei a melhor opção em ter parado o trabalho por hoje, que os painéis estariam todos molhados à mesma; mas a verdade é que estas paragens desorganizam a minha metodologia de trabalho com os meus colegas. Bom, para já, posso começar a fazer este novo orçamento, que convém entregar o mais rapidamente possível. E para amanhã, amanhã se verá.

PAINEL A PAINEL

Depois de todos termos visto o boletim meteorológico ontem à noite, decidimos que hoje ninguém vinha para o Museu Militar; supostamente ia chover o dia todo – o que afinal acabou por não acontecer. Nestes últimos dias temos andado a trabalhar e a parar constantemente, o que, vendo bem as coisas, acaba por interferir não só no ritmo de trabalho, como no material que se desperdiça e principalmente, naquilo que se faz e que se arrisca a ter de fazer novamente.

De qualquer modo, a intervenção avança dentro do previsto; aos poucos as inúmeras manchas brancas dos preenchimentos vão desaparecendo e a integração cromática vai sendo dada por terminada – azulejo a azulejo, painel a painel, ala por ala. Já percebi que o prazo que eu tinha estipulado para terminar o trabalho não vai ser cumprido, mas, se o tempo ajudar, espero dá-lo por concluído em meados de Maio.

PRIMAVERA

  

Primavera em Lisboa.

Finalmente temos uma estação como deve ser, à maneira antiga; como aquelas Primaveras que eu me lembro de quando era pequena – uns dias estava sol, outros chovia, ou então estava frio depois de uns dias de calor e assim se andava durante três meses, enquanto o clima fazia a sua transição do Inverno para o Verão seguinte. Tudo bem compartimentado em trimestres muito definidos.

Continuamos a nossa intervenção nos painéis de azulejos do Pátio dos Canhões. Com esta Primavera típica, a coisa vai um pouco mais devagar do que eu gostaria: ou está uma caloraça e não se consegue trabalhar ao sol; ou passa-se para a sombra e faz imenso frio ou está a chover e os azulejos ficam molhados e a integração cromática, com pigmentos aglutinados em cola não se conseguem fazer. Como seria de prever, já houve uma ou duas baixas na equipa e começo a pensar que deveria fazer a manutenção da nossa caixa de primeiros socorros com alguns analgésicos e anti-piréticos.

EQUIPA REFORÇADA

    

 

Não fosse a chuva de hoje, que nos obrigou a interromper o dia e estaríamos sete – contando comigo – a trabalhar nos painéis do Pátio dos Canhões, no Museu Militar. A equipa foi reforçada para esta etapa final que, se correr bem, tenciono que acabe daqui a um mês. Há muito trabalho pela frente e bastante moroso: entre inferiores e superiores, faltam preencher ainda alguns painéis e sobretudo, fazer a integração cromática em quase todos. De momento a equipa está dividida equitativamente entre tarefas – eu vou dando uma maõzinha onde for preciso e rectificando pequenos pormenores que foram deixados para trás -, mas para a semana mais duas pessoas transitarão para a pintura. E penso que assim todas as frentes estarão cobertas – até surgir uma estratégia melhor.

MOSAICO HIDRÁULICO

Na semana passada fui contactada pelo Sr. Joaquim que me pedia ajuda sobre o que fazer com uns azulejos em mau estado que tinha num chão de uma casa antiga, em Setúbal. Estranhei logo o facto de se tratarem de azulejos – à partida, no chão, seria pouco provável; mas a azulejaria portuguesa é tão rica que imagino que haja ainda muita coisa que eu nunca tenha visto.  Como a minha disponibilidade tem sido muito pouca ultimamente, perguntei-lhe se ele me fazia o favor de me enviar algumas fotografias; ao que me respondeu que teria todo o gosto nisso,  não fosse o pormenor de não o saber fazer. Pensei logo para comigo como o compreendia – eu própria sou quase analfabeta nisto das novas tecnologias.

Acabei por ir a Setúbal no fim-de-semana – aproveitando a deixa do passeio e de um bom peixe para o almoço. E não me arrependi: o Sr. Joaquim era uma simpatia; a casa, com quase cem anos, era linda e os azulejos, tal como eu desconfiei logo, afinal tratavam-se de mosaicos hidráulicos.

PREENCHIMENTOS

Segue a bom ritmo o trabalho no Museu Militar: após uma pausa de três meses, continuam-se agora a fazer e rectificar preenchimentos. Na fachada Norte, o painel da Batalha do Ameixial – cujo estado de conservação era deplorável – tem neste momento quase todas as falhas de vidrado e as fracturas preenchidas, depois de ter sido levantado integralmente, sofrido uma dessalinização e novamente assente na parede com argamassa tradicional à base de cal e areia. Após este tempo de pausa, não há vestígios de sais, o que me deixa mais tranquila com a dessalinização que foi feita.

Como parece que não vai chover tão cedo – ao contrário do resto do país, neste caso dá bastante jeito – decidi adiantar o início da integração cromática em duas semanas e começá-la já na próxima segunda-feira. A ala Sul está toda pronta e a Oeste quase, o que significa que as tarefas se podem ir fazendo em paralelo e assim ganhamos tempo. É melhor jogar pelo seguro e avançar aqui o mais possível agora, antes que arranque o trabalho no nº5 e a pressão se comece a instalar.

Nº5

Acabaram agora do mo confirmar: ficámos com o trabalho no nº5! Depois de muitas contas e várias opções de metodologias de intervenção, entreguei a semana passada, conforme o combinado, o orçamento para a conservação e restauro do conjunto azulejar existente no jardim deste palacete em Lisboa. E ao que parece, é para começar o mais rápido possível; logo agora que reiniciámos o Museu Militar – vou ter de articular muito bem a minha equipa e provavelmente contar com mais dois ou três colegas novos. Felizmente as duas obras são em Lisboa, a cerca de duas colinas de distância entre elas, o que permite, se for preciso, transitar de uma para a outra na mesma semana e até no mesmo dia. Se chover muito, param as duas; que ambas são no exterior. E talvez nessa altura eu consiga vir aqui para a oficina trabalhar na minha produção cerâmica.

REINÍCIO

Reiniciámos hoje o trabalho de conservação e restauro dos azulejos do Pátio dos Canhões, no Museu Militar, que foi interrompido por ser inverno e supostamente estar a chover muito – o que afinal não aconteceu; mas nada o fazia prever em novembro do ano passado, quando tivémos de parar por essa mesma razão. De facto, nem só a chuva atrapalha quando se trata de uma intervenção no exterior durante o inverno – o frio e humidade em nada ajudam quando se quer que a massa de preenchimentos seque, ou retocar com pigmentos aglutinados em cola. E ali sim, faz muito frio de manhã e o nevoeiro é bastante comum; os azulejos estão gelados e a chacota visível pelas falhas de vidrado está completamente molhada. De acordo com a fiscalização do trabalho, tínhamos decidido parar até inícios de Abril, mas uma vez que continua sem chover e já se vai sentindo um calorzinho durante o dia, decidi a semana passada que o melhor seria recomeçarmos já o trabalho, uma vez que ainda há muitos preenchimentos para se fazerem, principalmente nos painéis da fachada norte, que era a mais problemática – e assim já se vai adiantando qualquer coisa até que o tempo aqueça de vez e se possa começar com a integração cromática. Isto é, se não chover durante toda a primavera.

SALA DOS CISNES

Um dos privilégios de trabalhar nesta área é poder entrar em locais que normalmente estão vedados ao público; ou por serem particulares ou por se tratarem de zonas fechadas, de acesso privado apenas para quem lá trabalha. Ontem fui ver um palacete numa rua do centro de Lisboa, um daqueles palacetes pelo qual já tinha passado inúmeras vezes, mas que nem suspeitava – apesar de imaginar – da sua riqueza interior: os tectos com estuques trabalhados, as escadarias em madeira, os espelhos biselados, o jardim traseiro em sucalcos, o terraço no 1º andar e o conjunto azulejar. Foi por causa dos azulejos que lá fui, claro; mais um orçamento de restauro para fazer – na realidade, sete orçamentos para fazer; divididos pelas zonas onde se encontram os painéis. Só com isto prevejo perder uns dois dias, sem nenhuma garantia de ficar com o trabalho, ou parte dele e que será caro, o que é já evidente, dado o péssimo estado de conservação dos azulejos.

De qualquer modo, quando passar novamente naquela rua, já posso afirmar que uma vez entrei ali naquela casa – o que talvez nunca mais me volte a acontecer.