Não fosse esta constipação que me está a deitar abaixo há dois dias e hoje tinha um motivo para ir comemorar: dois meses depois do previsto e alguns €€€ fora do orçamento, acabei – finalmente! – a intervenção no 88! (Quando digo acabei, quero dizer que dei como acabado, porque ali ainda tudo pode acontecer). 7750 azulejos do séc. XIX, divididos em vários painéis de padronagem pombalina e figurativos D. Maria que foram levantados, reorganizados, restaurados e reassentados nos novos apartamentos dos cinco pisos do edifício pombalino da Rua da Assunção, nº 88, em Lisboa. Estou satisfeita; até o primeiro lance das escadas, que tinha sido quase todo roubado, resultou bem – improvisado com azulejos soltos de padronagem e cercaduras que sobraram dos outros painéis. Agora é tratar de fazer o relatório da intervenção, entregá-lo e receber o que ainda falta. E depois, é fazer rapidamente a agulha para outro lado, tentando esquecer tudo isto. Mas não aquilo que aprendi – que ainda foi bastante.
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STA. ENGRÁCIA
Há mais de um mês que estou na recta final da intervenção de levantamento, tratamento e reassentamento dos painéis de azulejos do 88. Trata-se de uma recta muuuuuito looooonga; sempre que lá vou, para dar os retoques finais, perco ainda algum tempo a limpar novamente o que já estava limpo, ou a pôr uma massinha nalgum azulejo que tinha escapado – tal era a quantidade de coisas constantemente à frente dos painéis – ou ainda a ter de esperar que os electricistas ou os pintores ou os carpinteiros acabem de fazer o que têm de fazer antes de eu poder trabalhar. O mais engraçado é que me garantem sempre «Isabel, pode vir, já não está lá ninguém e queremos entregar a chave esta semana» e eu vou, decidida a acabar aquilo (falta-me sempre muito pouco para terminar) e no meio da poeirada vejo as mesmas equipas a refazerem o seu trabalho, ou a partirem algum tecto ou parede – ou algum azulejo. As senhoras da limpeza também lá andam, pelo menos desde antes do Natal, não sei bem a fazer o quê; coitadas, são mais umas que vão ter de refazer o seu trabalho não sei quantas vezes. Enfim, há que ver as coisas pelo lado positivo; pelo menos começo o ano com trabalho – apesar de ser sempre e ainda o mesmo trabalho e não ganhar nem mais um tusto por isso – o que, psicologicamente, resulta.
ANO NOVO!
Não me posso queixar: entro em 2012 logo a fazer um orçamento. Para um trabalho pequeno, bem sei; mas sempre é um orçamento de conservação e restauro de azulejos e provavelmente será aceite. Trata-se de um hall de entrada de um prédio dos anos 30, com painéis de azulejos figurativos executados na extinta Fábrica Lusitânia – da qual apenas resta a chaminé, conservada no exterior do edifício da Culturgest, ali no Campo Pequeno. O trabalho é simples e não tem nada que saber; o mais complicado ainda há-de ser a manufactura de cerca de catorze ou quinze réplicas de azulejos, que desapareceram (claro está!) e cujas chacotas, em pó de pedra e com aquelas dimensões, já não se fabricam. Mas enfim, nada que não se faça e que não se consiga orçamentar.
EM STAND BY…
Temos os dois trabalhos parados, por motivos bastante diferentes.
No Museu Militar, os azulejos e as réplicas foram já todos reassentes e agora, com as paredes pintadas, o Pátio dos Canhões já parece outro, sem que se vejam grandes lacunas – aparentemente, o trabalho está terminado. Os painéis estão limpos, as superfícies de junta estão fechadas e os preenchimentos, exeptuando os da fachada Norte, estão todos feitos. Falta, no entanto, a integração cromática, a qual é muito complicada fazer-se com o frio que tem estado e o grau de humidade ali existente, principalmente de manhã – temos de nos lembrar que o rio é mesmo ali ao lado e chega a inundar uma das salas mais baixas do Museu. Estamos a pensar usar pigmentos aglutinados em cola; cola essa que reage muito mal com o frio e a humidade, facto pelo qual e de acordo com a fiscalização de obra, se decidiu parar até ao início da Primavera, quando o tempo começar a aquecer um pouco mais. De modo que… arrumámos o estaleiro, metemos tudo na carrinha e trouxemos as coisas todas de volta aqui para a oficina.
No 88… as réplicas estão feitas; os painéis estão todos de volta às paredes; as juntas todas betumadas; as escadas prontas com azulejos «inventados» dos que sobraram – visto que os dali tinham sido roubados quase na sua totalidade; os rodapés colocados e recolocados inúmeras vezes, os azulejos limpos e relimpos e relimpos e re…; os preenchimentos feitos e pintados, apesar de toda a poeirada e porcaria que já devem ter em cima. O que é que falta ainda? Na verdade, pouco; muito pouco, quatro ou cinco painéis do primeiro piso que ainda estão por preencher e pintar e uma tranche que supostamente teria de ser paga nesta altura – após o assentamento – e que teima em não vir, apesar de ter sido aceite nas minhas condições de pagamento.
OBRIGADA, INÊS!
Ontem comemorou-se mais um aniversário do Museu Militar; se não estou enganada, o centésimo sexagésimo qualquer coisa. Foi inaugurada uma exposição temporária sobre as Guerras Peninsulares e houve uma cerimónia oficial, com condecorações e entrega de diplomas de honra e também com uma apresentação do trabalho de conservação e restauro dos azulejos do Pátio dos Canhões. Fui completamente apanhada de surpresa, pois, apesar de já ter sido avisada que isto ía acontecer, fiquei convencida que a data era primeiro no dia 10 e depois, na terça-feira, dia 5 de Dezembro. Só não me lembrei é que dia 5 de Dezembro, afinal, calhava a uma segunda-feira – ontem, portanto e não hoje. Por acaso, na sexta-feira passada tratei de fazer um Power Point, ou melhor, fez a minha colega Inês (eu sózinha nunca teria conseguido!) e, por acaso, também, fui com ela ontem de manhã ao Museu Militar para começarmos a recolher material que já não é lá preciso, quando fui informada que estava tudo preparado para a tarde. Por sorte tinha o tal Power Point comigo e a Inês à mão, de modo que não tive outro remédio senão o de instalar a coisa ali mesmo e esperar que tudo corresse bem. Claro que não ensaiei nada e claro que não fui um pouco mais bem vestida, tal como tinha pensado, mas pronto; lá fiz uma apresentação para o Estado Maior do Exército e respectivas famílias, sempre com um olho nas fotografias e o outro na Inês, que as ía passando. Não me lembro bem do que é que disse, mas toda a gente estava atenta e no fim todos bateram palmas e vieram-me cumprimentar e dar-me os seus parabéns não só pela apresentação «claríssima!», como pelo óptimo trabalho executado. No final, bebi um Porto seco, comi um bolinho de chocolate e voltei para a poeirada.
BOLINHOS
Tenho comido um bolinho quase todos os dias, sempre que saio do 88. Podia ser pior e dar-me para beber, mas ainda não; por enquanto fico-me pelos doces. O assentamento dos painéis está todo pronto, exceptuando, claro, aqueles casos em que ainda não se decidiu o que fazer com as paredes, se são em alvenaria ou em Pladur ou em Aquapanel ou ainda se eram de uma forma, mas agora vão ser de outra. Há também os casos em que as paredes prontas têm de recuar vinte centímetros e aqueles em que elas já estavam acabadas mas que afinal têm de levar duas ou três tomadas – porque ali vai ser uma cozinha – e se voltam a abrir roços e levantam-se outra vez alguns azulejos para se passarem os fios eléctricos e também aqueles em que se chega à conclusão que naquele sítio, afinal, se pode abdicar da parede; mas assim, aqueles painéis já não ficam bem ali e o melhor será passá-los para outro lado, ou rodá-los para a horizontal, o que resulta muito melhor. A poeirada continua em alta e a confusão de gente também, mas no meio disto, continuamos a fazer preenchimentos e integração cromática onde podemos e a dar por terminados uma série de painéis, os quais vão sendo encontrados cobertos de entulho ou materiais vários das outras equipas, apesar dos vários alertas que já fizemos para os protegerem e nos quais não tencionamos voltar a tocar. Nesta altura estamos todos cansados e fartos de ali estar; já só queremos despachar o trabalho o mais rápido possível e sair dali para fora. Resta-nos o «está a ficar bom!» do engenheiro chefe, ao qual ainda acrescentou se eu lhe conseguia baixar o preço unitário das réplicas.
RESTAURADO!
Primeiro painel de azulejos acabado no 88! (Bom, bom; ainda falta proteger a integração cromática com cera microcristalina, mas amanhã de manhã, logo cedo pela fresquinha, vou aplicá-la sobre os preenchimentos e aí sim; pode-se proteger todo o painel com cartão antes que venham os barradores, ou os electricistas, ou os carpinteiros, ou os pedreiros, ou os pintores e nos sujem aquilo tudo de novo e a gente tenha do limpá-lo aí pela 4ª vez!…) E para ali não volto!
ENTRETANTO, NO MUSEU MILITAR.
Entretanto, no Museu Militar, a intervenção nos azulejos do Pátio dos Canhões continua a bom ritmo e mais ou menos dentro do previsto: na fachada Norte, a mais problemática, levantaram-se da parede menos azulejos do que eu estava à espera; em compensação, nas outras todas e principalmente na Oeste, levantaram-se muitos mais do que aqueles que eu tinha pensado. Ou seja, vendo bem as coisas, talvez tenha ficado ela por ela dentro do que estava planeado; na verdade, talvez tenha até derrapado um pouco em relação às minhas previsões, mas graças à minha equipa maravilha (e agora com um elemento a menos), penso que, ao fim de dois meses, estamos ainda muito à vontade com o prazo proposto. De resto, tudo vai: os tardozes estão limpos de argamassas; as colagens estão todas despachadas; o biocida aplicado; foram encontrados inúmeros azulejos e fragmentos em falta, o que veio colmatar muitas lacunas; os registos gráficos estão todos feitos; o assentamento de alguns painéis já começou e muitas superfícies de junta abertas estão já fechadas. Para os próximos dias e para que a coisa siga no bom caminho, temos de contabilizar já o número exacto de réplicas a efectuar; começar o processo de dessalinização do painel Ni2 e fazer os primeiros preenchimentos de pequenas lacunas e falhas de vidrado, que são mais que muitas, nos painéis que já estão mais adiantados. Enfim, ainda há muito pela frente, mas parece-me que está tudo controlado. Assim o bom tempo se mantenha…
AOS TRÊS, É DE VEZ!
De volta à oficina e aos trabalhos que tenho entre mãos, depois de duas semanas a banhos fora de Lisboa, numa tentativa falhada de relaxar e não pensar em assunto nenhum. Graças à minha equipa, a intervenção no conjunto azulejar do Pátio dos Canhões continua a bom ritmo e tenho tudo preparado para recomeçar os trabalhos de reassentamento dos azulejos no 88. De resto, ainda não parei; com reuniões e trabalhos futuros – não percebo o que é que está a acontecer, mas têm-me sido pedidos vários orçamentos, os quais tenho de despachar com alguma rapidez, alguns dos quais bastante complexos. Ontem fui ver o conjunto azulejar do Sr. Roubado, para o qual vou fazer um orçamento pela terceira vez, esperando que seja desta que o trabalho vá para a frente e confiando na sabedoria popular que diz que aos três, é de vez.
OBSESSIVO/COMPULSIVO
Entrámos na terceira semana de trabalho no Museu Militar. O mapeamento dos painéis inferiores com o registo do estado de conservação dos azulejos está todo feito; os preenchimentos de falhas de vidrado e pequenas lacunas com argamassas inadequadas foram todos removidos – excepto os do painel Ei -2, que eram tantos e tão rijos, que a tarefa é mais morosa e só se faz com a ajuda do vibroincisor -; o biocida está aplicado em todas as fachadas e as juntas estão a ser rectificadas a bom ritmo. Enfim, entre sombra e sol (e chuva ontem!), a minha equipa demonstra mais uma vez ter boa capacidade de trabalho e de organização, e as fachadas Este, Sul e Oeste avançam todas em paralelo, mais depressa do que eu previa. A fachada Norte, a mais problemática, está à espera do Loubet e do Ivo, que vêm directamente do Pinhão, sem passar pela casa da partida, nem receber os dois contos, para levantar integralmente todos os azulejos existentes, que se encontram em péssimo estado de conservação e muitos em risco de destacamento. Graças a esta parede, a minha função nos últimos dias tem sido a de agrupar e organizar fragmentos, numa tentativa obsessiva de encontrar, identificar e aproveitar o máximo de azulejos originais, antes de apurar o número de réplicas exacto que será necessário fazer-se. A coisa não é fácil e muito menos óbvia, os fragmentos são separados por uma lógica qualquer, que passado um bocado é substituída por outra que parece melhor e depois mais outra ainda; mas a verdade é que aos poucos, aos poucos… está quase tudo encontrado!












