FRISOS RELEVADOS

Saíram hoje do forno os primeiros exemplares das réplicas de frisos do séc. XVI, que fiz para o Palácio Nacional de Sintra e que irão ser colocados num pequeno posto da Sala Árabe, inseridos no novo circuito de acessibilidades para visitantes com necessidades especiais.

Estou um pouco reticente quanto aos tons, especialmente dos da peça inferior, mas na verdade, os originais na parede apresentam tantas nuances entre eles, que estou a pensar assumi-los assim – uma vez que se tratam de réplicas e que não estarão integradas dentro do conjunto azulejar.

Ou então não; como sempre e, por precaução, fiz chacotas a mais e tenho quase a certeza de que não vou resistir a vidrar mais uma ou duas com outras tonalidades diferentes e depois levo todos os que tiver e nessa altura sempre se podem escolher os que parecerem melhor. Ao fim e ao cabo, só me pediram dois exemplares de cada.

CRUA – SEGUNDA PARTE

E a semana acabou assim: estive a vidrar a peça inferior da réplica do friso cerâmico da Sala Árabe do Palácio Nacional de Sintra e que faz conjunto com esta que já mostrei aqui.

Coisas que hoje aprendi, depois de fazer mal:

  • é melhor vidrar primeiro as superfícies laterais e só depois, então, vidrar o fundo e os topos, fica um acabamento mais perfeito;
  • para vidrar com trincha parece-me melhor que o vidrado esteja um pouco mais líquido, mesmo arriscando ter de repetir as passagens três ou quatro vezes no mesmo sítio, em várias direcções;
  • com a pera de borracha convém que o vidrado esteja um pouco mais cremoso;
  • nada como trabalhar com as ferramentas adequadas a cada tarefa e ao fim que se pretende (esta já sabia, mas confirmei);
  • melhor trabalhar com luz natural – da parte da manhã, no caso aqui da oficina (esta também já sabia, mas fiz à tarde, com luz artificial);
  • já percebi porque é que esta técnica não teve grande desenvolvimento, dá imenso trabalho e demora-se um tempão para fazer um só azulejo, imagino que saíssem caríssimo!

Segue hoje para o forno, resultados só na segunda-feira.

 

CRUA

Acabei de vidrar a primeira amostra das réplicas de frisos em relevo que estou a fazer para o Palácio Nacional de Sintra.

Confesso que, de uma forma geral, estou sempre pouco confiante com a questão dos vidrados e em casos como este ainda mais, uma vez que os mesmos são aplicados com trincha, coisa a que não estou habituada e fico sempre um pouco angustiada com o trabalho, pois não consigo ter noção da espessura das camadas que apliquei, – se demasiado finas, se demasiado espessas. E em ambos os casos temos defeitos de vidrado depois da cozedura.

Enfim, vai ao forno esta noite; resultados, agora, só na segunda-feira. Vou passar o fim-de-semana a fazer figas.

 

 

 

OBCECADA

 

Acabei de modelar a réplica da peça inferior do conjunto de duas que compõem um dos elementos do friso da Sala Árabe, no Palácio Nacional de Sintra.

Demorei um pouco mais de tempo do que aquele que previ inicialmente; tive alguma dificuldade em perceber a definição dos relevos, apesar de ter várias fotografias tiradas de diferentes ângulos, por onde me basear – mas não é o mesmo do que ter uma peça original comigo, claro.

Bom, de qualquer modo, hoje dei-a por terminada –  muito a custo, que é sempre um problema eu conseguir parar; digo para mim mesma, em voz alta, pronto; já está!, isto depois pode-se aperfeiçoar directamente no gesso; mas fico obcecada com a coisa e começo a aperfeiçoar só mais este bocadinho e depois só mais aquele bocadinho, até dizer de novo, pronto, já está!, e começar outra vez a aperfeiçoar só mais esta pontinha e depois aquela… – mas, como estava a dizer, hoje dei a peça por terminada e pronta para tirar o molde, que o trabalho tem de avançar.

MAÇAROCA E FLOR-DE-LIS

Depois da empreitada que tive no final do ano passado, a produzir cerca de 50 réplicas de azulejos diferentes, com várias tipologias, tamanhos e espessuras para o Palácio Nacional de Sintra, foi-me agora pedida  ainda a manufactura de mais dois exemplares, que não tinham ficado decididos na altura.

Trata-se de uma réplica de um dos elementos do friso de azulejos relevados da Sala Árabe, compostos por duas peças verticais, com uma maçaroca numa flor-de-lis. Tal como a maioria das outras réplicas que fiz anteriormente, não existe nenhum exemplar disponível para ter comigo aqui na oficina, nem retirei nenhum molde do relevo directamente dos azulejos na parede, pelo que a modelação das peças é feita a olho, tentando reproduzir os motivos de modo a que estas se assemelhem o mais possível às originais do séc XVI.

Acabei agora de modelar o elemento superior; o próximo passo é tirar-lhe o molde.

 

ESGRAFITADOS

Dou por terminadas e prontas a serem entregues, as últimas peças que fiz para o novo circuito de acessibilidades do Palácio Nacional de Sintra, umas das mais desafiantes que já tive de fazer – duas réplicas do conjunto azulejar que emoldura a porta ogival da Sala das Sereias, constituído por vários azulejos individuais, com decoração esgrafitada, executado à forma e medida da cantaria.

A técnica do esgrafitado apareceu nos inícios do século XVI e consistia na remoção do vidrado escuro de um azulejo, com um estilete ou prego até o corpo cerâmico ficar à vista, deixando-o permanecer apenas nos motivos decorativos. As zonas descobertas podiam então ser preenchidas com um betume ou cal, na cor que se pretendia.

Cada uma destas peças é composta por três blocos cerâmicos juntos, onde cada azulejo individual aparece sugerido pela gravação de sulcos no barro, a simular as juntas de acordo com as originais existentes entre os azulejos na parede. Os três blocos foram modelados a partir de lastras com 2cm de espessura e secos ao mesmo tempo, de acordo com a retracção final do barro, tendo em vista a reproduzir a mesma forma e dimensão do conjunto azulejar da parede, de modo a que o motivo decorativo, aplicado depois da primeira cozedura, coubesse na íntegra dentro da superfície existente.

A decoração é uma espécie de falso esgrafitado, com uma aparência semelhante à do verdadeiro – confesso que nunca experimentei fazê-lo; em abono da verdade, também nunca tinha experimentado fazer este falso, mas como a necessidade aguça o engenho, depois de algumas experiências consegui encontrar um método que de certa forma se parecesse visualmente ao motivo decorativo a reproduzir e se à vista este ainda pudesse ser mais apurado – o vidrado poderia ser mais escuro -, pelo menos a sensação táctil existente entre as zonas vidradas e as zonas em chacota parece-me bastante idêntica. Que é o que se pretende neste caso.

 

 

 

 

 

PLACAS RELEVADAS

Há muitos anos tive o privilégio de participar na equipa que executou a intervenção de conservação e restauro do revestimento azulejar do quarto de D. Sebastião, no Palácio Nacional de Sintra. Os azulejos encontravam-se em bom estado de conservação e a intervenção consistiu essencialmente em limpeza e consolidações de superfícies vidradas.

Nessa altura estava eu longe de imaginar que alguma vez iria ter de executar réplicas desses azulejos e agora, ei-las. Tenho alguma dificuldade em chamar-lhes “azulejos”, na verdade tratam-se de placas cerâmicas relevadas, com cerca de 20x20cm, com 2cm de espessura – para mais, nunca para menos. O desenho foi retirado no local e o azulejo protótipo foi modelado em barro aqui na oficina, a olho, através de fotografia.

São grandes e pesados, são lindos! Acho que são os exemplares de maiores dimensões que já reproduzi.

 

RELEVADOS

Ainda na série de réplicas de azulejos de várias tipologias que tenho andado a fazer para o Palácio Nacional de Sintra, foram-me pedidos também dois exemplares destes frisos com um motivo vegetalista em relevo.

Os azulejos originais encontram-se em mau estado de conservação, apresentando não só pequenas e médias lacunas de corpo cerâmico, como também falhas de vidrado de grandes dimensões, algumas das quais quase na totalidade da superfície. Para esta situação contribui em larga escala o facto destes azulejos se encontrarem colocados num pátio exterior do palácio há mais de 500 anos e como se não bastasse, quando falamos de exterior, neste caso, estamos a referir-nos a um exterior… em Sintra.

Esta introdução toda é só para dizer que tive alguma dificuldade com a manufactura destes frisos; não tive nenhum azulejo original comigo aqui na oficina por onde me pudesse basear nem recorri a nenhum molde em silicone para confirmar o relevo, de modo que tive que me guiar pelas medidas que tirei quando lá fui ao local e modelar o protótipo em barro através das fotografias tiradas estrategicamente de vários ângulos; sendo que os azulejos originais, que parecem todos iguais, são na verdade todos diferentes  e que as falhas de vidrado e as pequenas lacunas de corpo cerâmico existentes não ajudaram a reproduzir, assim a olho, uma peça com estas características.

Nestas condições, estes exemplares foram a melhor reprodução que consegui fazer – têm um ar super-novo, mas se os deixarem no pátio lá fora por algum tempo, acho que rapidamente acabam por ficar mais parecidos com os originais.

 

 

 

 

ENCANASTRADO

 

Na recta final e ainda a verificar resultados das réplicas de azulejos quinhentistas que tenho andado a fazer para o Palácio Nacional de Sintra.

Aqui duas reproduções que apresentam, de forma simplificada numa peça só, um pequeno troço da moldura em azulejos da porta da Sala das Sereias, originalmente do tipo alicatado – técnica que consistia em cortar com um alicate pequenos fragmentos de placas de barro vidradas. Estes fragmentos tinham formas mais ou menos geométricas e, depois de recombinados, formavam pequenos painéis decorativos; neste caso, com um motivo encanastrado.

 

 

 

 

 

ILUSÃO DE ÓPTICA

Começo a ver finalizadas as réplicas que tenho andado a fazer para o Palácio de Sintra; aqui dois exemplares que reproduzem de forma simplificada, numa peça só, o módulo composto originalmente por três azulejos independentes, de dimensões, formas e cores diferentes, cuja repetição compõe o revestimento azulejar das paredes da Sala Árabe, criando um padrão geométrico de elevado efeito de ilusão de óptica tridimensional  e que mais parece uma criação contemporânea do que uma obra com mais de 500 anos de existência.