D. MARIA

P1110633

Fui contactada para ir ver uns painéis de azulejos que estão em risco de destacamento da parede, na Academia Militar, em Lisboa – na verdade, se não fosse a fita cola que lhes puseram de emergência, à laia de faceamento e muitos deles já teriam mesmo caído no chão. Trata-se de uma pequena sala interior, forrada com silhares de azulejos neoclássicos, também conhecidos por D. Maria. Estão em bastante bom estado de conservação, mas todos os que estão soltos têm de ser removidos e convém verificar-se o estado de adesão à parede de todos os outros.

Não sei o que é que se passa, mas de repente chovem-me pedidos de orçamentos – o que já é alguma diferença comparativamente com o ano passado.

 

 

BALANÇO

Apesar de ser domingo, só hoje tive tempo para fazer o balanço da semana de trabalho que passou lá no 88. Aproveitando o facto de o Loubet e o Ivo estarem no Pinhão, esta semana serviu sobretudo para tratar e organizar tudo o que já estava levantado, antes de   começarem a chegar mais azulejos e instalar-se a confusão total: limpeza de argamassas, limpeza de vidrados, limpeza de fracturas, colagens de fragmentos e montagem final de painéis no chão, com reorganização dos azulejos em falta, reorganização de azulejos de cercadura e rodapé e substituição de casos em muito mau estado de conservação por outros idênticos retirados dos painéis que não vão voltar para a parede. Para não falar na tarefa mais morosa da semana, que nesta fase já vai também bastante adiantada – remoção de tintas sobre as superfícies vidradas, tanto em painéis ainda nas paredes do 3º piso, como em azulejos soltos; com aplicação de duas ou mais camadas de decapante de forte cheiro.

Resumindo: neste momento temos cerca de 15 painéis completamente prontos e fechados para serem encaixotados e todas as tarefas mais complexas e morosas praticamente terminadas. Fazendo o balanço ao fim de dez dias de trabalho, não me posso queixar; a obra está a correr bem e as tarefas mais complicadas estão quase despachadas. Há espírito de equipa e toda a gente faz o seu melhor. Mais uma vez, estão todos de parabéns!

TODOS DE PARABÉNS!

Rendeu bem esta primeira semana de trabalho lá no 88: cerca de 2800 azulejos tirados da parede – 5º e 4º piso despachados e 3º quase, quase!-, aproximadamente 1000 limpos de argamassas e vários silhares do 3º piso limpos da tinta que os cobria integralmente. A minha equipa está de parabéns! Neste momento já temos armazenados todos os painéis que não vão voltar para a parede, o que nos vai permitir a substituição de muitos azulejos que estavam em mau estado de conservação, com fracturas múltiplas e algumas lacunas e ganhar algum tempo com tarefas posteriores, que assim já não fazem sentido: colagem de fragmentos, preenchimento e nivelamento de pequenas lacunas e falhas de vidrado e integração cromática.

E agora, fim-de-semana, para toda a gente arejar a cabeça!

QUINTA DE S. VICENTE

Na segunda-feira fui contactada por uma colega de pintura mural para ir ver um trabalho em Telheiras. Trata-se de uma capela particular, na antiga Quinta de S. Vicente, revestida a silhares de azulejos com albarradas e palmitos em azul e branco sobre rodapé duplo a manganês. Os estuques estão em muito mau estado de conservação e os azulejos foram completamente vandalizados, faltando «só» cerca de 270, uma vez que os outros estão bem aderentes à parede, sendo por isso mais difíceis de roubar. A ideia é fazermos um orçamento em conjunto, azulejo e pintura mural, para conservação e restauro de toda a capela. Pela minha parte, o grosso do trabalho será a manufactura de réplicas para colmatarem as lacunas, o qual, com o resto da intervenção, demorará cerca de dois meses e meio a fazer-se. Se o orçamento for aceite, imagino que o trabalho seja para breve. O que me dava um jeitaço!…

PALÁCIO CENTENO

Hoje fui chamada para uma intervenção SOS no Palácio Centeno, em Lisboa, actual Reitoria da Universidade Técnica. Dois dos azulejos dos silhares do átrio de entrada encontram-se praticamente sem vidrado, devido à enorme humidade das paredes, cuja presença de sais já é bastante visível e, mais tarde ou mais cedo, vai acabar por danificar o restante conjunto azulejar. Há dois anos fizemos lá uma intervenção de conservação e restauro dos azulejos, mas pelos vistos os problemas com a alvenaria mantêm-se e assim o trabalho acaba por ser um bocado inglório. A minha missão, agora, é tratar de fazer duas réplicas para substituir esses dois azulejos a tempo do lançamento de um livro no dia 14 deste mês…

CAPELA DO SENHOR DOS AFLITOS

Em 2002 eu e o Loubet fomos contactados pela delegação do IGESPAR de Évora para irmos fazer um trabalho na Capela do Senhor dos Aflitos, dentro do castelo de Campo Maior. Tratava-se de levantar da parede sete ou oito silhares de azulejos, de origem desconhecida e completamente trocados. Depois do levantamento, trouxemos os azulejos aqui para a oficina, removemos as argamassas dos tardozes, consolidámos falhas de vidrado e colámos fracturas e depois, com grande paciência, organizámos os puzzles, ainda conseguindo formar uma série de desenhos, apesar de terem ficado soltos uma série de azulejos com caras de anjos, concheados e bases de colunas, que não entravam em lado nenhum. O que nos tinha sido proposto, nessa fase, estava terminado e guardámos os azulejos em caixas devidamente identificadas por painéis e motivos soltos.

Entretanto, a pessoa que nos tinha contactado saiu do IGESPAR e na altura de entregar os azulejos, ninguém sabia bem com quem se deveria tratar do assunto e depois foi havendo várias mudanças no IGESPAR e nas Delegações Regionais, pelo que os azulejos aqui foram ficando, encaixotados e bem guardados num cantinho. Até que hoje, finalmente, veio alguém de Évora cá buscá-los. Ao que parece e, se tudo correr bem, porque não há dinheiro para nada e muito menos na cultura, a ideia é montá-los em suporte móvel de acrílico e talvez voltem para a capela de onde saíram. Espero bem que sim; a ver vamos.