Fornada de chacotas; uma das mais atípicas feitas aqui na oficina – duas luminárias e alguns frisos em terracota feitos por mim e um pote em barro preto com aplicação de engobe branco, feito pela minha amiga Julia.
Antes e 950ºC depois.
Já percebi que a minha relação com estas coisas da cerâmica é muito instável – tenho dias de grande entusiasmo e outros de desalento. E pronto, de uma vez por todas, não há dias «sem nada para fazer». Há sempre que fazer e os dias sem nada para fazer são para fazer aquilo tudo que não se faz nos dias com coisas para fazer – para evitar correrias e stresses quando de repente acontece alguma coisa; porque nisto da cerâmica, como em tudo, aliás, depressa e bem, não há quem.
Ontem tive um dia desmoralizante: a fornada que tinha feito correu mal e os vidrados dos azulejos que lá estavam ficaram uma vergonha – ainda estou para saber porquê, nas amostras tinham ficado bem. A partir daí só fiz disparates – mais – e acabei por perder um tempo que neste momento não me convinha nada. Saí da oficina a pensar «por que raio é que me meti nisto» e «assim não vale a pena, caramba».
Hoje o dia rendeu bastante: preparei umas trinta receitas de vidrados de alto fogo – dentro em pouco vou cozer as minhas taças, a 1250º, e quero aproveitar a mesma fornada – e fiz dois vidrados novos, para as taças setecentistas, que depois vidrei. E claro, pensei nas imensas ideias novas de tudo o que tenho para fazer.
Estou entusiasmada.
TÍTULO – Paixão que consome
DIMENSÕES – 26cm x 26cm x 18cm
PESO – 5,950 Kg
MATERIAIS UTILIZADOS – Barro refractário, porcelana e óxido de cobalto.
TÉCNICAS UTILIZADAS – Lastras, columbinas, incrustações e forma maciça escavada.
TIPO DE COZEDURA – Atmosfera oxidante, alto fogo – 1270ºC
AUTOR – Isabel Colher
Finalmente consegui virar para cima a minha peça de cerâmica, após quase três semanas na incógnita sobre o que se passaria do lado de dentro! A primeira fornada correu muito bem – ao menos alguma coisa! – e pude constatar, com agrado, que o homem lá continua de braços abertos e com um sorriso de felicidade na cara; tem bom feitio, claro, fosse eu e não estaria tão contente. A incrustação de porcelana também parece ter aguentado, já tinha feito dois ou três testes de experiências, mas não estava muito segura quanto à coisa. De resto, tudo igual: o que já estava torto, torto continuou; bom teria sido ter-se endireitado pelas artes do fogo, mas assim não aconteceu e pelo menos não piorou… Acabei agora de aplicar o óxido de cobalto (que trabalheira!…) e a peça vai já directinha para o forno, agora sim, para cozer a alta temperatura. E até segunda não quero pensar mais neste assunto!
Nem ontem nem hoje fui para o 88, tenho de estar aqui na oficina para ir fazendo a minha peça que está num ponto crítico. Ontem resolvi construir uma cofragem em cartão duro para a conseguir virar ao contrário; as pernas são demasiado altas e estreitas e foi a melhor solução se não quero que haja azares – que ainda podem acontecer. Tenho de me apressar a trabalhar o interior, que na verdade é o que vai ser o exterior. Estive a fazer uma incrustação com porcelana, que segundo os testes que fiz anteriormente, irá cozer à mesma temperatura que o barro refractário, a cerca de 1250ºC. Provavelmente irá estalar nalguns pontos, os coeficientes de retracção das duas pastas são diferentes, mas tudo bem, vai ser assumido assim.
Hoje vou fazer uma fornada de vidrados, quero ver se estas peças ficam prontas para as levar à loja na próxima semana. Com tanta coisa que ando a fazer ao mesmo tempo, começo a ficar baralhada com isto tudo; tenho peças a secar para enchacotar a 970º e outras a 1040º; por outro lado, tenho vidrados para cozer a 1020º e outros a 1240º. Isto para não falar nas experiências de barro pigmentado com diferentes percentagens de óxidos, nem nas tacinhas que estou a modelar. E mais os orçamentos que tenho para fazer pelo meio disto tudo, sem me enganar e que me roubam algum tempo. Os frasquinhos com experiências de vidrados desmultiplicaram-se rapidamente e uns servem para uma coisa e outros para outra, mas como estão bem identificados, não há margem para confusões – espero eu. Tenho pressa em ver resultados; ando entusiasmada, mas estes processos demoram o seu tempo e as semanas passam demasiado rápido. E o forno demora um dia até eu poder ver o que se passou lá dentro. Ufa!… Estou cansada…
Depois de um percalço com a fornada no forno grande, consegui finalmente abrir hoje o forno pequeno para ver como correram as experiências de vidrado. Não há nenhuma que eu possa aproveitar à partida, mas fiquei satisfeita; aproveitei quatro ou cinco como base para novas experiências e agora é só saber interpretar resultados; estará o vidro fino, ou ferveu com tanta temperatura? Será que o forno arrefeceu muito bruscamente antes dos 800ºC? Juntando óxido de zinco fica mais branco, não?… Ou precisará de mais fundente? Mas afinal onde é que aqui entra o bórax? E com a curva de cozedura, como é que é? E o raio da balança, que não consegue pesar só três gramas!… Já me rodeei de leitura para trabalho de casa; mas quanto mais leio, mais me interrogo. E pronto. Boa sorte para mim.
Preparo-me para fazer receitas de vidrados, para experiências. Como isto da cerâmica tem pano para mangas e é um percurso moroso e paciente, só agora há pouco tempo é que me caiu a ficha. Passo a explicar o problema: Se eu cozer o barro refractário à temperatura dos vidrados – 1020ºC-, não fica com o tom que eu quero e, os vidrados fervem se eu os cozer à temperatura do barro -1250ºC ou mais. Portanto,… tenho aqui um problema de incompatibilidades. Que tenciono começar a resolver; vou fazer experiências, com vidrados de alta temperatura, mais óxidos e corantes e tintas, sobre peças chacotadas a baixa temperatura, muito mais porosas e receptivas à calda de vidrado. E assim, no final, coze tudo à mesma temperatura. Tudo o que eu sei destes vidrados é teoria e sei que a obtenção de cores é mais limitada. Mas como tenho bastantes placas de experiências, é dar largas à imaginação e vai já tudo hoje direitinho para o forno. E com os resultados começo a aprender alguma coisa.
Fiz algumas experiências de côr para pintar as réplicas da Igreja da Misericórdia em Tavira. O azul escuro, não sei bem porquê, ultimamente não fica tão escuro como eu quero, agora acrescentei-lhe um pouco de óxido da cobalto e vou baixar um pouco a temperatura de cozedura. E depois, há sempre a questão do vidrado branco, que, sendo sempre branco, pode ser também rosado, azulado ou acinzentado… É uma questão de fazer várias experiências de uma vez só, para rentabilizar as fornadas e a partir daí, por comparação, ir aperfeiçoando os tons. Enfim, um processo moroso, que tem de ser sempre feito. De qualquer modo, acho que já posso arriscar em pintar a maior parte dos azulejos para este painel; tirando os marmoreados, penso que todos os outros já se irão integrar bem no conjunto.
Acabei de abrir o forno, ainda a 100ºC. Deixei as minhas peças a cozerem no domingo à noite, parece que nenhuma se partiu, o que era o meu medo. De qualquer forma, deu já para perceber que este barro fica com um aspecto final diferente do outro que eu costumo trabalhar, tem uma cor diferente, mais avermelhada… E não era bem isto que eu queria…. É o que dá trabalhar à pressa, sem ter tempo para experiências. Por outro lado, tem a ver só com as minhas expectativas, quem não saiba… Bom, agora não há nada a fazer, a fornada foi igual às outras, com as mesmas temperaturas e o melhor é vidrá-las e pintá-las como tinha pensado e ver o que é que dá…