M’HAMID EL GHIZLANE

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Observando  o mapa de Marrocos, M’Hamid el Ghizlane encontra-se no oásis onde a estrada nacional acaba, a cerca de 65o km a sudeste de Marraquexe; onze horas de autocarro – na melhor das hipóteses – doze ou mais para ser rigorosa. Dali para a frente, que é como quem diz, para todos os lados, está o deserto e quem vai até M’Hamid é por que quer entrar no deserto.

A povoação que vem assinalada no mapa é a nova M’Hamid el Ghizlane. Trata-se de uma aldeia com pouco interesse e muito menos beleza – está construída sob um molde urbanístico qualquer, que não é dali; espraiada à torreira do sol. A maioria das casas são feitas em tijolo de betão, não há árvores nem sombras e é impossível andar nas ruas largas durante as horas de mais calor – que são durante quase todo o dia, todos os dias do ano. Nem mesmo o rio Draâ, ali à sua beira, consegue refrescar o ambiente; o seu leito largo encontra-se totalmente seco (um dó!) e ao que parece a última vez que se viu água por ali foi há dois anos, quando se abriu a represa existente mais acima, perto de Ouarzazate e que serve para alimentar os campos de golf lá construídos. Nas casas da nova M’Hamid passa-se calor e muitos dos seus habitantes, no verão, mudam-se para as casas da família que ainda se mantêm na aldeia antiga e que são mais frescas.

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Um dos motivos que levou a maioria das pessoas a abandonar a velha M’Hamid el Ghizlane – a povoação mais importante daquele oásis, porta de entrada e saída das caravanas que  vinham e iam para o deserto; entreposto cujo mercado reunia viajantes e comerciantes vindos de todos os lados –  foi a inexistência de electricidade e água canalizada, que só agora ali estão a chegar. Outro talvez tenha sido a impossibilidade de circularem carros dentro da kasbah, toda construída em terra- a sua rua principal, a única que se vê em fotografia aérea, apresenta muitas zonas demasiado estreitas e as ruas transversais são como que corredores debaixo das casas; túneis escuros, compridos e frescos, iluminados aqui e ali por poços de luz vindos desde o exterior lá em cima, que acumulam também a função de ventilar cá em baixo. A circulação é feita a pé e de burro (e de motocicleta) e os drawas, os habitantes daquela região que sempre ali viveram e os que ainda ali vivem, estão mais do que adaptados àquela vida – a sua aldeia está sabiamente construída de forma a que ali se possa viver, defendida das amplitudes térmicas radicais que se fazem sentir.

Estive na velha M’Hamid el Ghizlane duas semanas e agora, acabadinha de chegar a Lisboa, parece que me ausentei por uns meses – ainda estou a fazer a agulha. O objectivo da minha ida foi o de participar no III Atelier de construção com terra, organizado pela associação espanhola Terrachidia. A ideia era restaurar a porta de entrada da kasbah, que se encontrava em mau estado de conservação e de preferência envolver a população local na sua recuperação, o que acabou por acontecer. Ali se fizeram adobes e se rebocou com terra. Aprendeu-se a construir em taipa e bebeu-se chá doce – demasiado doce! – nos intervalos, para recarregar as forças. Ali se tentou dizer os érres em árabe, com a garganta. Ali se suou, 40º; comeu-se pó. Muito pó, os olhos a arderem. Mediram-se ruas. Ali se viram noites estreladas sob a brisa morna do palmeiral. Ali se ouviu o chamamento para a oração, couscous à sexta-feira. Ali se subiu à duna mais alta, para ver o pôr-do-sol. Ali se falou e comunicou com a alma, com o sorriso. Cantou-se em francês. Viu-se e viveu-se outra realidade muito diferente, tudo tão forte, muito forte. Riu-se e chorou-se. Ali se está a começar a fazer um caminho. Alhamdulilah.

ABÓBADA NÚBIA

Neste fim-de-semana que passou – sábado e domingo – participei no módulo prático «Adobo, arcos e abóbadas» da Oficina da Primavera, promovido pela Associação Centro da Terra. Como objectivo (atingido!) tinha-se a construção de uma abóbada núbia, técnica arquitectónica ancestral, proveniente do alto Nilo. Aprendi a fazer adobos e a amassar a argamassa de terra com os pés. E que 80% dos solos são bons para construir com a própria terra. E também o que é um arco de catenária e expressões como «arquitectura monolítica» e «arquitectura de compressão». E no fim pude confirmar uma das vantagens da construção em terra crua: apesar do caloraço que se fazia sentir, lá dentro estava muito mais fresco – sem ar condicionado, nem qualquer consumo de energia.

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OFICINA DA PRIMAVERA

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