Depois de vários anos assente numa parede com infiltrações de água vindas de uma caleira superior em muito mau estado e também de um tubo interno, cuja manilha em grés, se encontrava partida sabe-se lá há quanto tempo, era natural que o painel Ni-2 se encontrasse em muito mau estado de conservação. O facto dessa parede estar, ainda por cima, rebocada com argamassas à base de cimento e revestida a tinta plástica também não ajudou e claro que as juntas fechadas e os preenchimentos feitos com massas de elevado grau de dureza também não. Os sais solúveis existentes no corpo cerâmico cristalizaram aos primeiros raios de sol e não tiveram outro remédio senão sair pelas falhas e fissuras dos vidrados dos azulejos ainda na parede; por incrível que pareça, o elo mais fraco para eles saírem, uma vez que todo o painel se encontrava hermeticamente fechado, dando origem a novas falhas e destacamento de mais vidrados. Agora, depois de levantado todo o painel, é vê-los a aparecer nos tardozes e nas superfícies laterais dos azulejos – sempre se evitam danos nas superfícies vidradas. Para a semana, o painel entra integralmente em dessalinização e a partir daí podemos contar com umas três ou quatro com os azulejos dentro de água, medições de condutividade e mudança regular de banhos. Assim mais ou menos como pôr o bacalhau de molho.
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SÓ UM
Continuamos a encaixotar painéis de azulejos lá no 88; limpos de argamassas e vidrados, colados e reorganizados, prontos para mais tarde voltarem para a parede. Dos 82 painéis que vão voltar, amanhã fechamos mais três e fica só a faltar um! Estou muito satisfeita com este trabalho e principalmente com a minha equipa, que se tem revelado com bom espírito de entreajuda, para além de ser responsável e trabalhar bem. Hoje recebemos todos bastantes elogios (e não é a primeira vez!) tanto da empresa que nos contratou como dos donos do prédio – acho que eles não estão habituados a que se cumpram os prazos…
AZULEJOS DE RODAPÉ
Continuamos a encaixotar painéis de azulejos prontos para saírem lá do 88. O trabalho segue a bom ritmo e os levantamentos estão terminados; agora é só uma questão de tratar dos azulejos – limpar as argamassas, limpar os vidrados e colar fracturas. Optámos por deixar para o fim os azulejos de rodapé, que na maior parte dos casos e em todos os pisos se encontravam metidos cerca de dois centímetros dentro do soalho, o que dificultou a sua remoção da parede, para além de muitos já estarem fracturados. Curiosamente, neste prédio as cores dos azulejos de rodapé variam bastante do que é normal, sendo as mais comuns o azul e o manganês e não parece ter havido nenhuma lógica para a sua utilização, pois estão um pouco misturadas pelas várias salas de cada andar. Vamos encaixotá-los todos juntos, à parte e por cores.
BALANÇO
Apesar de ser domingo, só hoje tive tempo para fazer o balanço da semana de trabalho que passou lá no 88. Aproveitando o facto de o Loubet e o Ivo estarem no Pinhão, esta semana serviu sobretudo para tratar e organizar tudo o que já estava levantado, antes de começarem a chegar mais azulejos e instalar-se a confusão total: limpeza de argamassas, limpeza de vidrados, limpeza de fracturas, colagens de fragmentos e montagem final de painéis no chão, com reorganização dos azulejos em falta, reorganização de azulejos de cercadura e rodapé e substituição de casos em muito mau estado de conservação por outros idênticos retirados dos painéis que não vão voltar para a parede. Para não falar na tarefa mais morosa da semana, que nesta fase já vai também bastante adiantada – remoção de tintas sobre as superfícies vidradas, tanto em painéis ainda nas paredes do 3º piso, como em azulejos soltos; com aplicação de duas ou mais camadas de decapante de forte cheiro.
Resumindo: neste momento temos cerca de 15 painéis completamente prontos e fechados para serem encaixotados e todas as tarefas mais complexas e morosas praticamente terminadas. Fazendo o balanço ao fim de dez dias de trabalho, não me posso queixar; a obra está a correr bem e as tarefas mais complicadas estão quase despachadas. Há espírito de equipa e toda a gente faz o seu melhor. Mais uma vez, estão todos de parabéns!
LIMPEZA POR VIA HÚMIDA
Esta semana não vamos levantar azulejos das paredes lá do 88; temos muitas outras tarefas para adiantar e às tantas o espaço livre começa a ficar bastante condicionado – felizmente na próxima quinta-feira chegam os caixotes e a partir daí os primeiros painéis podem começar a ser despachados dali para fora. Hoje começámos a limpeza de vidrados por via húmida e temos ainda muita tinta para remover com decapante, tanto de alguns painéis do 3º piso como de uma série de azulejos soltos. Para não falar nas inúmeras colagens de fragmentos, na maioria de azulejos que já se encontravam fracturados na parede, nem na limpeza das argamassas dos tardozes, essa tarefa sempre tão criativa e estimulante…
IDEIA PEREGRINA
Mas quem é que terá tido esta ideia peregrina de pintar integralmente os silhares de azulejos do 3º piso lá do 88? E depois, não é uma camadinha simples de tinta, não; são pelo menos duas camadas de tinta, às vezes com cores diferentes, que a moda vai mudando e este tom já não se usa, sobre uma primeira camada de sub-capa ou aparelho ou lá como é que aquilo se chama e que serve para a tinta aderir melhor às superfícies vidradas e não saltar. Obrigadinha! Nalguns casos a tinta não salta, nem sai com nada, bem podemos usar o bisturi com uma lâmina novinha em folha que nos esfalfamos só para abrir uma janelinha mínima naquela crosta de meio centímetro! Enfim, mais um problema para a brigada do restauro resolver…
A MIL…
Hoje vou fazer uma fornada de vidrados, quero ver se estas peças ficam prontas para as levar à loja na próxima semana. Com tanta coisa que ando a fazer ao mesmo tempo, começo a ficar baralhada com isto tudo; tenho peças a secar para enchacotar a 970º e outras a 1040º; por outro lado, tenho vidrados para cozer a 1020º e outros a 1240º. Isto para não falar nas experiências de barro pigmentado com diferentes percentagens de óxidos, nem nas tacinhas que estou a modelar. E mais os orçamentos que tenho para fazer pelo meio disto tudo, sem me enganar e que me roubam algum tempo. Os frasquinhos com experiências de vidrados desmultiplicaram-se rapidamente e uns servem para uma coisa e outros para outra, mas como estão bem identificados, não há margem para confusões – espero eu. Tenho pressa em ver resultados; ando entusiasmada, mas estes processos demoram o seu tempo e as semanas passam demasiado rápido. E o forno demora um dia até eu poder ver o que se passou lá dentro. Ufa!… Estou cansada…
OHAUS
Estou super-contente! Ontem comprei finalmente uma coisa que há muitos – muitos! – anos queria ter: uma balança de precisão, com sensibilidade até aos centésimos de grama. Caramba, nem era preciso tanto, décimos chegavam perfeitamente… E agora sim, isto é que vai ser fazer recitas de vidrados com algum rigor! É que, quando se trata de óxidos, meio grama pode fazer muita diferença, alguns são extremamente fortes! Bem sei que nisto das experiências há sempre muito desperdício de material; mas por que estar a usar 300g de vidrado base para conseguir pesar uns míseros 3g de óxido de cobalto, que corresponde a 1%? E isto é quando a balança que cá temos consegue pesar 3g, porque às vezes fica ali parada nos 2 e eu a deitar pitadinhas atrás de pitadinhas, com muito cuidadinho… e aquilo nem sequer mexe; até que de repente!, pumba, salta directamente para os 5g!… (É claro que aqui sai o meu vernáculo pessoal). Mas hoje até já consegui pesar 0,5g de óxido de cobre e a partir daqui é só dar largas à imaginação.
INTERROGAÇÕES
Depois de um percalço com a fornada no forno grande, consegui finalmente abrir hoje o forno pequeno para ver como correram as experiências de vidrado. Não há nenhuma que eu possa aproveitar à partida, mas fiquei satisfeita; aproveitei quatro ou cinco como base para novas experiências e agora é só saber interpretar resultados; estará o vidro fino, ou ferveu com tanta temperatura? Será que o forno arrefeceu muito bruscamente antes dos 800ºC? Juntando óxido de zinco fica mais branco, não?… Ou precisará de mais fundente? Mas afinal onde é que aqui entra o bórax? E com a curva de cozedura, como é que é? E o raio da balança, que não consegue pesar só três gramas!… Já me rodeei de leitura para trabalho de casa; mas quanto mais leio, mais me interrogo. E pronto. Boa sorte para mim.
PRODUTIVIDADE
Estou muito satisfeita, esta semana rendeu bem! Fiz e entreguei o orçamento da Quinta de S. Vicente; pintei as réplicas e fui assentá-las no Palácio Centeno, dentro do prazo S.O.S. que me pediram; enchacotei uma série de peças novas e tenho mais uma data delas preparadas para cozerem já hoje, a alta temperatura, juntamente com experiências de vidrado novas. Para além de já ter amostras de barros de diferentes tons e imensos picotados que recolhi na nossa pasta de desenhos para réplicas que foram sendo feitas ao longo destes anos todos de restauro e que tenciono usar nas peças para as séries «Fragmentos». Para compôr ainda mais o ramalhete, ontem, acabada de sair daqui da oficina, tive uma ideia brilhante na qual comecei a trabalhar logo hoje de manhã, visto que se trata de uma das coisas que mais gosto de fazer: modelar em barro. Eheh! Desta vez dois baixos-relevos baseados nos azulejos de figura-avulsa do séc. XVIII e que vão direitinhos para a série «É o mar que nos chama».













