Tenho andado às voltas com a organização da papelada do 88 – faço tudo para não ter que arrumar esta oficina! Apesar da vontade não ser muita, é melhor ir tratando disto já, enquanto tenho tempo disponível e as coisas ainda estão frescas na minha cabeça: contabilizar os paineis que saíram quando, quem é que trabalhou quantos dias, dar início ao relatório. E contabilidade; verificar se não meti os pés pelas mãos quando pensei no orçamento, quer a nível de tempos, quer a nível de custos. E telefonemas atrás de telefonemas, para ver quando é que me pagam e que nunca são atendidos. Enfim, é toda uma parte chata, mas alguém tem de fazê-la… Quando for grande quero ter uma secretária.
FAZER NADA!
Hoje não me apetece fazer nada! Esta oficina está a maior confusão: depois de termos descarregado todo o material do 88 (juntamente com mais uns móveis que também vieram de lá e mais uma série de caixotes com casacos de cabedal antigos que descobrimos num armário antigo do Rei das Peles) e ainda o material que o Ivo e o Loubet também resolveram vir cá deixar e que já não precisam no Pinhão, isto está impraticável e não sei por que ponta comece. Tenho coisas para fazer, claro; poderia começar a lavar e a arrumar a ferramenta, ou começar a organizar e a limpar a minha bancada de trabalho, onde a minha peça em cerâmica está a secar (e a empenar), no meio de montes de tralha. E depois há todo o trabalho de bastidor; papelada, contas, relatórios para fazer e preparação de mapas de trabalho e estratégias para a obra do Museu Militar, que se avizinha. E mais um orçamento para Santarém, que ainda não percebi se já passou o prazo ou não… Mas enfim, estou em fase de descompressão e preciso é de uns dias de papo para o ar. O que não irá acontecer.
AGORA SIM
Conforme o previsto, está concluída a primeira fase de levantamento e tratamento dos painéis de azulejos do 88, incluíndo a série de trabalhos extra, que se fizeram nos sete dias estipulados. Mais uma vez tenho a agradecer à minha equipa de colaboradores, que vestiu a camisola e se empenhou na obra como se se tratasse de um trabalho de todos e não apenas meu – graças a eles os prazos foram cumpridos. O estaleiro está arrumado, o material e a ferramenta estão guardados e hoje à tarde vamos fazer uma campanha de cargas e descargas aqui para a oficina. Agora é esperar pelo arranque da segunda fase, para reassentamento dos azulejos nas paredes e posterior restauro; a qual, segundo me foi dito, deverá começar lá para finais de Agosto.
SECAGEM
Começou a fase de secagem da minha peça; consegui colar a figura humana lá dentro mesmo in-extremis para a poder virar de novo ao contrário e tirar a cofragem da parte de trás, o que já não foi fácil – o barro já estava a retrair e ameaçava rachar nalguns pontos, mas depois de algum stress lá consegui fazer tudo sem partir nada. Acho… Agora é ir controlando a secagem, que convém ser lenta e homogénea, para que as paredes não empenem. O tempo está a meu favor, a oficina não está muito quente e começo a desconfiar que até poderia estar um pouco menos húmida, se quero enfornar no máximo daqui a três semanas… Bom, é ir ficando atenta e ver o que é que acontece.
NERVOSO MIUDINHO

Continuo a fazer a minha peça em contra-relógio; falta praticamente um mês para entregar toda a documentação para ver se sou seleccionada para a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea. Tenho de acabá-la o mais rapidamente possível se quero que a secagem se faça como deve ser – uns quinze dias pelo menos e depois faltam ainda as duas cozeduras previstas. De acordo com o tema, «A estética da paixão, a paixão pela estética» e com a minha memória conceptual e justificativa, comecei hoje a modelar a figura que vai estar lá dentro, espero terminá-la amanhã para a poder colar no fundo do remoinho. Começo a entrar ligeiramente na fase do nervoso miudinho, em que quero despachar tudo depressa mas para as coisas saírem bem, tudo tem de ser feito com calma e muito lentamente. Enfim, paciência, muita paciência…
PORCELANA
Nem ontem nem hoje fui para o 88, tenho de estar aqui na oficina para ir fazendo a minha peça que está num ponto crítico. Ontem resolvi construir uma cofragem em cartão duro para a conseguir virar ao contrário; as pernas são demasiado altas e estreitas e foi a melhor solução se não quero que haja azares – que ainda podem acontecer. Tenho de me apressar a trabalhar o interior, que na verdade é o que vai ser o exterior. Estive a fazer uma incrustação com porcelana, que segundo os testes que fiz anteriormente, irá cozer à mesma temperatura que o barro refractário, a cerca de 1250ºC. Provavelmente irá estalar nalguns pontos, os coeficientes de retracção das duas pastas são diferentes, mas tudo bem, vai ser assumido assim.
EXTRA, EXTRA!
Após conversações várias e alguma choraminguice para eu baixar o meu orçamento – o que me irrita ligeiramente -, começámos hoje os trabalhos extra lá no 88. Trata-se de cerca de mais 1300 azulejos para levantar, distribuídos por pequenos painéis e que supostamente seriam para tratar in situ e proteger, uma vez que irão voltar exactamente para os mesmos lugares. A coisa teria lógica, não fossem alguns azulejos encontrarem-se em risco de destacamento, com as argamassas em desagregação, facto que se agrava ainda mais com as intervenções que a brigada da destruição já está a fazer no resto do edifício. Segundo as minhas contas, serão mais sete dias de trabalho, não contando com o Loubet nem com o Ivo, que continuam no Pinhão. Para já, pode-se dizer que as coisas estão a correr bem, hoje conseguimos tirar cerca de 750 azulejos das paredes; ou seja, metade do previsto…
MUITO PELA FRENTE
Lá segue a construção da minha peça em cerâmica para a exposição no Mosteiro de Alcobaça; já se vê qualquer coisa. A peça é um bocado complexa e tenho de estar atenta à secagem do barro: se por um lado tem de estar suficientemente seco para se poder trabalhar; por outro, tem de estar suficientemente húmido para se poder trabalhar… Tenho diferentes espessuras de paredes e todas têm de estar no mesmo ponto, para que não empenem nem partam. Enfim, um processo moroso; o que eu aliás já sabia, mas que nesta altura do campeonato não dá jeito nenhum. Se quero ser seleccionada, tenho de entregar até ao fim de Junho toda a documentação relativa à peça, incluindo 3 imagens: título e dimensões da obra; peso; materiais e técnica de realização; autor e memória conceptual e justificativa. Posso dizer que nesta altura já tenho um terço de todo o trabalho feito, mas ainda tenho muito pela frente!
PARALELIPÍPEDO!?
Segundo o regulamento para a aceitação das peças na Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea, cada obra não deve pesar mais do que quinze quilos. Como o meu projecto tem estado apenas na minha cabeça durante estes dois meses em que não lhe consegui pegar, só ontem me apercebi, quando meti mãos-à-obra, o quão irreal ele era: uma peça para colocação vertical, quadrangular, com cerca de 50×50 cm de largura e cerca de 15 cm de altura. E grossa; pelo menos dois cm de espessura. Claro que bastou-me desenhar a planta à escala 1:1 para perceber que não iria ser possível executá-la nestes moldes; primeiro porque nem sequer tinha barro suficiente para tal e segundo, logo assim à vista desarmada, a peça iria pesar uns 30 kg! Para além de outras questões várias de execução, algumas um pouco complexas… Bom, felizmente tenho a capacidade de reformular uma ideia rapidamente e, pegando exactamente no mesmo projecto, consegui transformá-la numa peça de colocação horizontal, quadrangular, com cerca de 25×25 cm de largura e cerca de 18 cm de altura – é a vantagem dos paralelipípedos.
EM ANDAMENTO!
Em Março inscrevi-me para uma Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea que se irá realizar em Setembro no Mosteiro de Alcobaça, a propósito das comemorações do episódio histórico de D. Pedro e D. Inês de Castro. A exposição está subordinada ao tema «A estética da paixão / A paixão pela estética» e à primeira vista foi coisa que não me interessou. No entanto o meu subconsciente, que é tramado, ficou a pensar no assunto e umas horas depois as primeiras ideias para uma peça começavam a ganhar forma. Nessa noite quase não dormi, a minha cabeça estava a mil e na seguinte também não. Resultado: dois dias depois já sabia o que é que ía fazer e mentalmente só me faltava contornar algumas questões técnicas de execução. Na altura estava eu cheia de tempo e até ao final de Junho, o prazo para a entrega da documentação aos promotores do evento, faltavam ainda três meses. Depois apareceu o 88 e a intervenção nos 6300 azulejos, ao fim de mais de dois anos à espera. Agora, para Junho faltam só duas semanas, o que quer dizer que tenho de me despachar com o projecto, com a memória conceptual e claro, com a manufactura da dita peça. Que já está em andamento!


