SEARCHERS

Hoje de manhã vim para a oficina, o que já não acontecia há quase dois meses. Há várias coisas que foram interrompidas quando comecei o trabalho do 88, confesso que naquela altura até pensei «Oh não!… um trabalho de restauro agora? Então e as minhas ricas peças em cerâmica, das quais eu não tiro um tusto e que eu ía tão entusiasmada?», mas rapidamente tive de fazer a agulha para ali,  que ganhar dinheirinho é que tem de ser, principalmente depois do marasmo do ano passado.  Bom, agora tenho de pegar no trabalho onde o deixei ficar, já nem sei bem onde era; esta adaptação, assim de repente, dá-me um bocado de jet lag. E assim, ao som de Searchers, do Amon Tobin – o que até tem a ver com o tema -, tento meter as ideias em ordem.

O REI DAS PELES

Nos tempos áureos do 88 era lá que funcionava O Rei das Peles;  três pisos só por sua conta. Agora, há dois meses que o prédio está a ser demolido: picaram-se paredes até ao osso, arrancaram-se chãos e tectos, tiraram-se barrotes de madeira podre, enfim; só contentores de entulho já saíram dali uns cinquenta. Ainda assim e apesar da movimentação dos trolhas escada acima, escada abaixo, há  coisa de duas ou três semanas houve um casal que conseguiu subir por entre a poeirada, até ao segundo andar, para nos perguntar, com ar espantado «a loja está a funcionar?», ao que  deveríamos ter respondido, dentro das máscaras, capacetes e óculos de protecção, «claro que sim, o que é que deseja?».

TERMINADO

Dei hoje por terminada a primeira fase da intervenção de conservação e restauro do conjunto azulejar do 88. Cerca de 6300 azulejos, divididos por vários painéis em quatro andares, foram levantados das paredes, tratados e acondicionados provisoriamente em caixas de cartão devidamente identificadas; muito dentro do prazo previsto.  Agora, mais um dia ou dois para arrumar todo o estaleiro e levar tudo de volta para a oficina… e daqui a dois ou três meses tornar a trazer tudo de novo para dar início à segunda fase do trabalho e ao reassentamento dos azulejos na parede.

O QUE SOBRA

Fechámos ontem a última caixa dos painéis de azulejos retirados do 88. Estou satisfeita! 82 voltam, 54 permanecem no seu lugar, devidamente protegidos da brigada de destruição que arranca chão, paredes e madeiras e toda a restante memória daquele prédio pombalino – lembraram-se dos azulejos, vá lá! Dos restantes 46 painéis que ficam de fora reorganizámos todo o conjunto que irá voltar para as paredes: colmatámos lacunas; encontrámos cinco tipos de cercaduras onde outros as misturaram; retirámos inúmeras unidades que definitivamente não eram dali; substituímos azulejos em extremo mau estado de conservação devido principalmente às sucessivas empreitadas que foram acontecendo naquele prédio e que em nada os respeitaram –  antes muito pelo contrário. E agora trata-se de encaixotar todos aqueles que sobraram e que vão ser inventariados e acondicionados num armazém, ao pé de mais não sei quantos caixotes com azulejos, todos à espera de ver o que é que lhes acontece. Foi isso que começámos a fazer hoje e é o que vamos fazer amanhã.

SÓ UM

Continuamos a encaixotar painéis de azulejos lá no 88; limpos de argamassas e vidrados, colados e reorganizados, prontos para mais tarde voltarem para a parede. Dos 82 painéis que vão voltar, amanhã fechamos mais três e fica só a faltar um! Estou muito satisfeita com este trabalho e principalmente com a minha equipa, que se tem revelado com bom espírito de entreajuda, para além de ser responsável e trabalhar bem. Hoje recebemos todos bastantes elogios (e não é a primeira vez!) tanto da empresa que nos contratou como dos donos do prédio – acho que eles não estão habituados a que se cumpram os prazos…

FINALMENTE!

Entrámos na recta final da primeira fase da intervenção de conservação e restauro dos painéis de azulejos lá do 88. Na sexta-feira passada terminámos – finalmente! – a remoção de tintas sobre os vidrados; este foi o último painel a ser limpo, um dos maiores e mais trabalhosos, por sinal. Podem-se observar quatro fiadas que não são originais do painel; por algum motivo o mesmo teve de ser acrescentado, talvez para ser inserido na sala onde estava no terceiro andar. De qualquer modo, não há registos nenhuns sobre a origem de todo este conjunto azulejar, nem sobre as intervenções que foram sendo feitas ao longo dos tempos…

LER EM TODO LADO

Mais uma pequena feira onde vou estar com a minha banquinha cheia de peças em cerâmica feitas por mim. Desta vez é no átrio de entrada da Biblioteca Camões. Se repararem no programa, lá está; dia 29 de Abril, Isabel Colher. E com a vantagem de ali não chover! – Acho.

AZULEJOS DE RODAPÉ

Continuamos a encaixotar painéis de azulejos prontos para saírem lá do 88. O trabalho segue a bom ritmo e os levantamentos estão terminados; agora é só uma questão de tratar dos azulejos – limpar as argamassas, limpar os vidrados e colar fracturas. Optámos por deixar para o fim os azulejos de rodapé, que na maior parte dos casos e em todos os pisos se encontravam metidos cerca de dois centímetros dentro do soalho, o que dificultou a sua remoção da parede, para além de muitos já estarem fracturados. Curiosamente, neste prédio as cores dos azulejos de rodapé variam bastante do que é normal, sendo as mais comuns o azul e o manganês e não parece ter havido nenhuma lógica para a sua utilização, pois estão um pouco misturadas pelas várias salas de cada andar. Vamos encaixotá-los todos juntos, à parte e por cores.

03.02.14

Continua a saga de remoção de tintas sobre as superfícies vidradas dos azulejos dos painéis do terceiro piso lá do 88; felizmente só por mais dois ou três dias – espero! Mas o esforço compensa e os resultados são mais do que satisfatórios, como se pode ver por este painel que encaixotámos ontem com a referência «03.02.14, Completo».