Iniciámos hoje a quarta semana de trabalho lá no 88. Estamos na recta final de levantamento de painéis da parede, embora para além disso ainda haja muito restauro para fazer. Aqui há uns dias comecei a tentar tirar os azulejos que restam no primeiro lance de escadas lá do prédio e nessa altura percebi porque é que não foram todos roubados – as argamassas de assentamento estão demasiado duras, o que até já era previsível pela quantidade de metades de azulejo deixadas na parede. A coisa não foi fácil; a posição não ajudava e em cada três azulejos lá se partia um, o que não sendo mau de todo, já me estava a irritar. Resolvi deixar essa tarefa para o colega Ivo, que tem muito mais paciência do que eu e menos dez aninhos de idade.
MESA DE COLAGENS
Apesar da minha experiência de quase 20 anos a restaurar azulejos, há sempre algumas coisas que conseguem escapar. Quando fiz o orçamento para este trabalho no 88 e respectivo planeamento de tarefas e tempos previstos para cada fase, cometi alguns erros crassos que já tinha obrigação de saber. Senão, vejamos: incluí-me na equipa de levantamento dos azulejos, a qual planeei decorrer em simultâneo com a equipa de limpeza e tratamento dos mesmos e na qual também me inseri; subestimei a tarefa de limpeza de tintas dos vidrados, que está a dar água pela barba e que apesar do seu bom andamento, demora muito mais do que o previsto; não me lembrei que alguém (eu própria) tinha de tratar de toda a logística do trabalho como a compra de materiais e toda a organização de papeladas, contabilização de painéis e tudo o mais inerente ao decorrer da obra; finalmente, devia ter-me lembrado que alguém deveria estar exclusivamente a fazer colagens de fracturas e falhas de vidrado, tarefa que tenho sido eu a fazer ultimamente para que se possam despachar painéis completos dali para fora. O mais engraçado é que, no meio disto tudo, ainda pensei que iria ter dois dias livres por semana para ficar aqui na oficina a tratar da minha produção cerâmica… O que vale é que a minha equipa de trabalho é bastante expedita e felizmente lembrei-me de dar margens de tempo para o cumprimento desta fase. Portanto, está tudo bem.
3ª SEMANA
Se não estou enganada, temos neste momento cerca de 5600 azulejos levantados da parede, o que quer dizer que já nem chegam a mil os que ainda faltam levantar. A intervenção está a decorrer a bom ritmo e, não fossem as inúmeras zonas com tinta sobre os vidrados, – 8l de decapante até agora e não vão chegar… – ainda estávamos mais avançados. Fez agora um mês que o trabalho começou e hoje três semanas que estou com a minha equipa; portanto mais do que dentro dos dois meses de prazo que eu previ para esta fase.
NÃO VOLTAM
A intervenção de conservação e restauro dos cerca de 7750 azulejos que fazem parte do conjunto azulejar dos cinco andares lá do 88, prevê acontecer três coisas distintas: 6368 são para levantar das paredes; 1382 são para manter nas paredes e fazer um tratamento in situ e 5032 são para assentar de novo nas paredes, mas em locais diferentes e até em pisos diferentes dos de onde estavam colocados originalmente. Isto quer dizer que vão haver 1336 azulejos, distribuídos por vários painéis, que não vão voltar para as paredes e apurar quais eles eram foi coisa que ainda deu algum trabalho e me obrigou a olhar com atenção para as plantas de reassentamento de todo o edifício e contabilizar todos os painéis que estão previstos voltar para cada andar, assim como todos os que se irão manter no local, para conseguir, por exclusão de partes, apurar aqueles que ficam de fora. Tudo isto foi feito num serão lá em casa, logo na primeira semana de trabalho em que estive sózinha e apesar do cansaço do dia, parece que ainda não me enganei em nada e tudo tem estado a bater certo até agora.
PÁTIO DOS CANHÕES
Como se já não tivesse pouco em que pensar, fui contactada a semana passada para fazer um orçamento para uma intervenção de conservação e restauro de todo o conjunto azulejar do Pátio dos Canhões, no Museu Militar, ali ao pé de Santa Apolónia. E como sempre, querem um orçamento com urgência… São só cerca de 12800 azulejos para intervir, dos quais uns 5000 têm de ser levantados das paredes e o resto tratados in situ, tudo distribuído nem sei ao certo por quanto painéis. Todo o conjunto azulejar está em péssimo estado de conservação e já prevejo trabalho para cinco ou seis meses. Não há fome que não dê em fartura!…
ENCAIXOTADOS!
Finalmente os primeiros painéis encaixotados! Mandei fazer por encomenda cerca de 500 caixas de cartão à medida dos azulejos para se guardarem os painéis fora do 88 enquanto durarem as obras de remodelação do prédio e antes que eles tenham de voltar para a parede daqui a uns meses. As ditas caixas chegaram na sexta-feira passada e hoje conseguimos encaixotar dezoito painéis que já tínhamos totalmente prontos – com os azulejos limpos, colados e reorganizados, sem lacunas integrais e com um mínimo de falhas de vidrado. Estes já estão despachados para saírem dali.
Entretanto hoje acabámos também o levantamento dos azulejos do 3º piso; ou seja, agora estamos todos a trabalhar ao mesmo tempo no segundo e último andar. E é um gosto ver o bom andamento do trabalho!
BALANÇO
Apesar de ser domingo, só hoje tive tempo para fazer o balanço da semana de trabalho que passou lá no 88. Aproveitando o facto de o Loubet e o Ivo estarem no Pinhão, esta semana serviu sobretudo para tratar e organizar tudo o que já estava levantado, antes de começarem a chegar mais azulejos e instalar-se a confusão total: limpeza de argamassas, limpeza de vidrados, limpeza de fracturas, colagens de fragmentos e montagem final de painéis no chão, com reorganização dos azulejos em falta, reorganização de azulejos de cercadura e rodapé e substituição de casos em muito mau estado de conservação por outros idênticos retirados dos painéis que não vão voltar para a parede. Para não falar na tarefa mais morosa da semana, que nesta fase já vai também bastante adiantada – remoção de tintas sobre as superfícies vidradas, tanto em painéis ainda nas paredes do 3º piso, como em azulejos soltos; com aplicação de duas ou mais camadas de decapante de forte cheiro.
Resumindo: neste momento temos cerca de 15 painéis completamente prontos e fechados para serem encaixotados e todas as tarefas mais complexas e morosas praticamente terminadas. Fazendo o balanço ao fim de dez dias de trabalho, não me posso queixar; a obra está a correr bem e as tarefas mais complicadas estão quase despachadas. Há espírito de equipa e toda a gente faz o seu melhor. Mais uma vez, estão todos de parabéns!
AZULEJO POMBALINO
Isto é um azulejo pombalino, de rodapé, marmoreado a azul e branco. Encontrámos uma série deles iguais a este in-extremis, pouco antes de todo o 5º piso lá do 88 ser totalmente destruído. Como estavam numa fiada única de rodapé, pintados com tinta castanha, passaram despercebidos na inventariação de todo o conjunto azulejar do edifício e por pouco também nos passavam a nós. Há duas semanas que o 5º andar estava dado por terminado, todos os painéis existentes tinham já sido levantados das paredes e foi o engenheiro da obra, completamente por acaso, que percebeu que os rodapés de madeira de duas ou três divisões lá de cima eram, afinal, azulejos. A camada de tinta era de tal modo que nem as superfícies de junta se percebiam. Bom, o caso é que nos dão jeito; vêm colmatar algumas lacunas dos rodapés de outros painéis e também substituir uma data deles que se encontram com fracturas múltiplas e pequenas lacunas volumétricas de corpo cerâmico. Agora a questão é remover esta tinta, uma parte sai com a espátula e bisturi, mas o resto… não vamos conseguir escapar ao decapante.
SIMPLEX
Hoje tive de ir à segurança social para tratar de uns assuntos cujo prazo estava já no limite. Cheguei por volta das nove e meia e dirigi-me à maquina das senhas. Tirei a senha H, a que me pareceu mais indicada para o meu caso, depois de ter lido todas as hipóteses de atendimento dos vários balcões. H50. Como a coisa ainda ía no H9, sentei-me descontraída e tirei o livro que tinha levado, já prevenida para a espera. Ao fim de uma meia-hora de leitura, ao olhar para o ecrã que eles lá têm exposto com o andamento daquilo tudo, percebi que afinal, a minha senha deveria ser a G. Fui lá retirá-la e pelo sim, pelo não, guardei as duas. G14 – a minha; G2 – onde ía. Bom, mesmo assim já tinha melhorado bastante. Tornei a pegar na leitura, mas desta vez desconcentrada; suspeitava que me poderia faltar alguma coisa; sei lá, papelada, um documento qualquer, alguma fotocópia. Levantei-me e circulei por ali, até que lá mais à frente vi um papel afixado que dizia « É favor proceder ao preenchimento dos formulários enquanto espera». Formulários? Quais formulários? Não tinha nenhum… Bom, fui à tesouraria, onde vi que para ser atendida tinha de tirar a senha B. Felizmente ali andava-se um pouco mais depressa e depois de esperar uns cinco números antes do meu, pedi os ditos formulários, ainda assim com um sorriso na cara e com bons modos. «Ó minha senhora, AQUI é a tesouraria! A tesouraria; só para fazer pagamentos!». Ok, ok; nas finanças os formulários compram-se na tesouraria… Fui ter com o segurança, que afinal era quem disponibilizava os ditos. Entretanto a senha G aproximava-se do meu número a um ritmo vertiginoso, à média de uma pessoa por cada vinte minutos. Dlim, dlão! G12… Dlim, dlão! G12… (Este deve ter-se fartado de esperar…) G13. Faltava só um para a minha vez e ainda tive de ficar ali mais um bom bocado, os olhos fixos no ecrã, a ver quando é que aquilo mudava. Finalmente fui atendida por um senhor muito simpático, diga-se de passagem, que tratou dos meus assuntos e esclareceu as minhas dúvidas. Saí de lá depois do meio-dia, contente por àquela hora já ter terminado a greve do metro e pus-me a caminho do 88.
LIMPEZA POR VIA HÚMIDA
Esta semana não vamos levantar azulejos das paredes lá do 88; temos muitas outras tarefas para adiantar e às tantas o espaço livre começa a ficar bastante condicionado – felizmente na próxima quinta-feira chegam os caixotes e a partir daí os primeiros painéis podem começar a ser despachados dali para fora. Hoje começámos a limpeza de vidrados por via húmida e temos ainda muita tinta para remover com decapante, tanto de alguns painéis do 3º piso como de uma série de azulejos soltos. Para não falar nas inúmeras colagens de fragmentos, na maioria de azulejos que já se encontravam fracturados na parede, nem na limpeza das argamassas dos tardozes, essa tarefa sempre tão criativa e estimulante…













