PAUSA

Estou contente. Decidi fazer uma pausa na manufactura das chacotas, antes de ficar maluquinha de todo. Passo muitas horas sózinha aqui na oficina, o que até nem me desagrada, – gosto de trabalhar em silêncio quando estou concentrada. Mas, de vez em quando, trocar umas impressões com alguém; tirar dúvidas sobre o meu trabalho, rir um bom bocado; faz-me bem e eu preciso. Assim e antes que este espaço se torne um diário delirante da minha imaginação, resolvi canalizar a minha criatividade para o bom caminho e parar de fazer sempre a mesma coisa de enfiada. Até porque não há pressa. Se eu fizer dez chacotas por dia, no fim desta semana terei todas as que preciso. E consigo avançar com a cerâmica. Portanto… Estou com ideias para peças novas, mas antes de mais e para que não me esqueça, fiz já mais três placas relevadas para a Série Horto, para concluir o conjunto de sete que eu tinha pensado. Estas são os protótipos, em barro vermelho, para execução de moldes.

Todos os dias arranjo uma desculpa para não ir bater a portas de lojas. Com este pretexto, hoje estive também a actualizar a minha página de cerâmica, que agora já tem também as fotos das peças que eu levei para a Feira Setecentista e às quais chamei Série Fragmentos.

BENEFÍCIOS DE AMASSAR BARRO

Hoje, enquanto fazia mais não sei quantos azulejos manuais em barro, ocorreu-me esta bela ideia: por que não criar um protocolo com uma academia de ginástica para que faça uma sucursal aqui na oficina? Seria uma óptima maneira de eu ter o barro todo amassado, sem ter de investir em nenhuma fieira, que só ocupa espaço e  gasta electricidade e ainda ganhava dinheiro, claro; porque essas coisas pagam-se! Na brochura publicitária do ginásio, ou, como se diz agora, flyer, poder-se-ia ler «Método inovador, com resultados visíveis ao fim de apenas três dias!», o que não seria mentira nenhuma, não senhor, que eu posso comprovar por mim própria! Vejamos os benefícios de amassar o barro: trabalham-se os braços, os quais adquirem uma nova musculatura; trabalham-se os abdominais, ficando com a barriga mais rija e ainda se trabalham as pernas, que ficam mais tonificadas de tanto flectir para cima e para baixo ao pegar nos pacotes de 12 quilinhos de barro e levá-los de um lado para o outro! Acreditem, em três dias apenas, já tudo isso me dói, é melhor do que fazer remo! Nem água falta, porque se sua as estopinhas… E já nem falo do lado terapêutico de amassar barro! Para que se evitem bolhas de ar, é fundamental bater o barro com muita força e aqui, convém pensar no chefe, ou no governo, ou nalguma coisa que nos esteja a chatear mesmo a sério, com a vantagem de à noite se cair na cama a dormir sem pensar em problema nenhum. Até se poupa na farmácia.

Vou já à net ver contactos de ginásios. Tenho a certeza que não vai faltar gente interessada, tudo aqui a amassar barro e eu sempre a fazer azulejos manuais. Em pouco tempo devo ter mais do que suficientes para revestir a Baixa Pombalina, não? Olha… vou aproveitar e vejo já também se descubro o telefone do António Costa…

50

Continuo a fazer as chacotas manuais para as réplicas dos azulejos da Igreja da Ota. Segundo as nossas contas, vão ser precisas cerca de 120, mas, pelo sim, pelo não, vou fazer umas 140, assim já há uma margem para enganos ou para qualquer azar. Estou a fazer tudo muito de-va-ga-ri-nho, que já não posso com os braços. Se estivesse com o tempo contado, lá teria de acelerar e, provavelmente, hoje já tinha tudo feito, mas assim vou com calma para não cair para o lado sem me mexer. Portanto, neste momento, já há 50. Tenho estado a fazer pilhas de dez, para o barro ir secando devagar e sem empenos. E amanhã, quando chegar, a primeira coisa a fazer é virar as placas todas ao contrário. E depois é continuar a amassar…

CALOS NAS MÃOS

Comecei a fazer as chacotas manuais para as réplicas dos azulejos da igreja da Ota. Ufa! Já há algum tempo que não amassava barro e estou a suar em bica, apesar de nem estar assim tanto calor! Este processo é do mais artesanal que existe, o que tem a sua piada e confere aos azulejos um aspecto mais semelhante aos originais; no entanto, a idade já não o vai permitindo! Tenho de ganhar algum dinheirinho e ver se invisto numa fieira e, já agora, numa máquina de fazer lastras (como é que vão caber aqui na oficina é que não sei, mas depois se verá). Os meus calinhos de estimação, que estavam tão quietinhos, é que já se começam a manifestar da pressão que eu faço no rolo da massa. E ainda só vou nas 30 chacotas…

BARRO VERDE

Vou começar a fazer cerca de 150 chacotas manuais para um trabalho de restauro dos azulejos da Igreja da Ota. O trabalho começou quase há um ano e entretanto ficou parado, já há uma série de meses, para obras na nave central e também na cobertura da igreja. Comprei estes pacotes de terracota ainda antes do verão, para começar a fazer as chacotas, mas entretanto comecei a entusiasmar-me com as minhas peças e com as feiras e nunca mais peguei nisto. Não há ainda nenhuma previsão para recomeçar os trabalhos de assentamento dos azulejos que tirámos da parede, mas é melhor eu começar a tratar de fazer as réplicas o quanto antes, para poderem secar à vontade e eu ter tempo para fazer experiências de cor com calma. Se tudo correr como é habitual, o padre há-de telefonar de repente e diz-nos para ir logo no dia seguinte… e depois é o stress do costume. O barro já está a ficar verde e, se não me ponho a pau, eu também.

TUDO ARRUMADINHO!

Lá consegui arranjar um armário aqui na oficina para arrumar as minhas peças de cerâmica. Isto é tudo muito giro, mas o mal destas coisas, se não as despachamos para qualquer lado, é que ocupam espaço. E aqui, apesar da oficina ser grande, o espaço está a escassear. Acho que está a chegar a hora de eu ir fazer aquilo que tenho andado a adiar já há algum tempo; ou seja, meter-me nas minhas tamanquinhas e ir bater a algumas portas de lojas que possam estar interessadas nas minhas peças. Pânico! Não tenho jeito nenhum para estas coisas e, pior, sou péssima para o negócio! Por mim continuava eternamente a fazer peças e mais peças e depois elas tratavam de ir à sua vidinha e mandavam-me o dinheiro para casa, tipo emigrantes longe da família…

DE VOLTA À OFICINA!

Cá estou! De volta à oficina, depois de um mês inteirinho sem pensar em cerâmica, nem restauro, nem feiras, nem blogs, nem net! Bom, confesso… pensei um bocadinho em cerâmica; li umas coisas que me interessavam para umas peças futuras, mas despreocupadamente, que é para isso que servem as férias: limpar a cabeça e pôr alguma leitura em dia.

Agora, de volta à oficina e com a cabeça limpa, tenho de recomeçar do zero. Isto aqui está um bocado caótico; tudo desarrumado e eu, que até sou uma rapariga organizadinha, assim não me oriento. Antes de começar a fazer seja o que for, primeiro tenho de arrumar e limpar tudo! Assim uma coisa do género «ano novo, vida nova!». Tenho uma data de peças que me sobraram das feiras e que despejei, literalmente, no meio da sala; depois, caixotes e caixotinhos com fragmentos de azulejos que não há meio de saírem daqui e só ocupam espaço; os moldes aparecem por todo o lado, o suporte da rebarbadora insiste em não sair do caminho, a mesa de trabalho está cheia de tralha variada e o pó!, uf!… esse instalou-se por todo o lado e só vai desaparecer com uma barrela das grandes!

Bom… mãos-à-obra. (Não me apetece nada, mas lá terá de ser!).

FEIRA SETECENTISTA DE QUELUZ

30, 31 de Julho e 1 de Agosto de 2010.

Já está! Muito gira, esta feira! Gostei. Bem organizada, com bancas com produtos diferentes, seleccionados à época (embora haja sempre uns desvios, claro, mas não muitos…) e animação histórica bem feita e engraçada. A organização teve o cuidado de fornecer roupa aos comerciantes e artesãos, de modo que tudo estava bem unificado. A mim trataram de me dar uma touca, mais setecentista, uma vez que a outra que eu tinha era demasiado medieval.

As novas peças tiveram um certo sucesso e, tal como eu imaginava, os turistas terão de ser o meu público prioritário. A minha amiga Jule, que é alemã e vai agora de volta para Berlim, levou um dos pratinhos para oferecer aos pais, dizendo-me que as minhas peças «são Lisboa». As taças altas foram logo vendidas, uma a um casal francês e as outras duas a um senhor alemão, que ainda me comprou mais uma das outras taças medievais e duas tacinhas pequenas. O meu melhor cliente, portanto, até agora. «Isto, muito bom!», foi o que ele me disse. Fiquei toda babada, claro está!

De resto, ainda não percebi bem se quero continuar a fazer feiras ou não. Tem o lado simpático e divertido de se conhecer pessoas e receber dinheiro imediato; por outro, está-se muitas horas a olhar para ontem, em que não se passa nada. Tenho de pensar nesta questão e também tratar de encontrar duas ou três lojas específicas onde faça sentido colocar as minhas peças… Mas para já, estou muito cansada e preciso de uns dias para ficar de papo para o ar!… Ufa!…

LINHA SETECENTISTA

Estas são as primeiras amostras das minhas peças da linha Setecentista. Enfim, dizer «linha» nesta fase talvez seja um pouco exagerado; «segmento de recta», para já, está mais apropriado… Tal como eu receava, duas das taças altas saíram mal e também dois solitários. Vão ter que ficar aqui na oficina, a contribuir para o resto de entulho que cá guardamos, à espera que um dia se faça alguma coisa com ele. Mas apesar de tudo, estou satisfeita. Gosto especialmente das peças com as letras e acho que percebi o que correu mal … Apesar de não estarem perfeitas, levo todas as outras já hoje para a Feira Setecentista de Queluz (a propósito, arranjaram-me uma banca deles!), sempre são cinco pratinhos, quatro solitários e três taças altas. Juntando ao resto das peças que me sobraram das outras feiras, acho que vou ter uma banca compostinha! Agora, mais uma vez, é carregar tudo para o carro e depois descarregar tudo na feira, esperando não destilar com esta caloraça… Lá vou!

OLHOS EM BICO!

Estou com os olhos em bico! Hoje estive a vidrar e a pintar as novas peças. É o ultimo dia que tenho para ainda as enfornar e conseguir levá-las a tempo para a Feira Setecentista de Queluz depois de amanhã. Continuo com medo deste processo, não estou segura com os vidrados e muito menos com o branco, que por várias vezes já me saiu mal. O problema é que em cruas parecem sempre bem e só depois é que se vêem os resultados… E isto de estar a pintar coisinhas morosas à pressa não dá; se bem que pequenos defeitos de fabrico até darem graça às peças e terem também a ver com a época. Mas pronto, já estão terminadas! Umas mais inspiradas do que outras, claro, mas há gostos para tudo… – e é o que me vale!