NÃO ERA BEM ISTO…

Acabei de abrir o forno, ainda a 100ºC. Deixei as minhas peças a cozerem no domingo à noite, parece que nenhuma se partiu, o que era o meu medo. De qualquer forma, deu já para perceber que este barro fica com um aspecto final diferente do outro que eu costumo trabalhar, tem uma cor diferente, mais avermelhada… E não era bem isto que eu queria…. É o que dá trabalhar à pressa, sem ter tempo para experiências. Por outro lado, tem a ver só com as minhas expectativas, quem não saiba… Bom, agora não há nada a fazer, a fornada foi igual às outras, com as mesmas temperaturas e o melhor é vidrá-las e pintá-las como tinha pensado e ver o que é que dá…

FRAGMENTOS

Ando à procura de motivos para pintar nas minhas novas peças. A ideia é que elas fiquem com um ar de que foram arrancadas e esculpidas de pedaços de uma parede onde existiram azulejos. Vou utilizar partes de desenhos que sejam facilmente reconhecíveis como pertencentes à azulejaria do séc. XVIII. O azul e branco ajuda, claro. Livros não faltam aqui na oficina e desenhos já picotados, que usei nas réplicas para intervenções de restauro, também não. E cacaria, nem se fala; temos pilhas de fragmentos que vão ficando de trabalhos e que guardamos religiosamente, nem sei bem para quê.

TEMPO CONTADO

Fiz cinco pratinhos e cinco taças altas novas. E ainda mais seis solitários. Este barro é novo, tem chamote mais fina, não sei bem como vai resultar, mas não havia o que eu costumo trabalhar. Por um lado, talvez até seja melhor, pois quero pintar os motivos como se fossem fragmentos de azulejos ou faiança e o grão mais fino facilita. Já tenho esta ideia há muito tempo, para possíveis peças para pôr à venda no Museu do Azulejo. Tenho o tempo contado, se as quiser levar à Feira Setecentista, no fim da próxima semana e ainda falta quase tudo: secar, lixar, cozer, vidrar e pintar, cozer novamente. Acho que vou ter de acelerar o processo nalguma fase…

PEÇAS NOVAS

Resolvi ir à Feira Setecentista de Queluz, no fim deste mês. É verdade que eu tinha dito que não ía, quando a Câmara Municipal de Sintra me convidou para participar; aleguei que as minhas peças tinham sido idealizadas para as feiras medievais e que eu achava que não se adaptavam a este novo tema. Também é verdade que ainda lhes disse que, embora tivesse já umas ideias, não tinha tempo suficiente para fazer peças novas, mas que para o ano contassem comigo. Só que pensei melhor, falei com a Câmara e afinal vou. Vou, «mas só com estas peças que restam, não gasto nem mais um tostão em barro!»

Hoje fui comprar barro. Foram só dois pacotinhos… Fiz peças novas. Tem estado calor e talvez elas sequem. Domingo, no máximo, têm de ser enfornadas. Como não tenho muito tempo para experimentar ideias novas, continuo na mesma linha das que já tenho, mas com uma decoração diferente. Azul e branca, como na época áurea da azulejaria portuguesa do séc. XVIII.

Entretanto, espero não mudar de ideias mais vez nenhuma.

VERMEER

Nesta feira não me apanharam desprevenida! Era para ir vestida à época? Então lá fui! Bom… não sei se seria bem medieval, mas pelo menos era qualquer coisa que se assemelhasse… De um lençol velho fiz uma saia e uma touca, o avental é o que uso aqui na oficina e depois foi só ver o que é que tinha guardado lá para casa… Não ficou mal. Disseram-me que eu parecia «A leiteira», do Vermeer. É possível, é possível; não me tinha ocorrido, mas provavelmente estava no meu subconsciente quando pensei nisto. Obviamente, nunca iria vestida com um fato de cortesã, que essas não vendiam nada nas feiras e teriam, certamente, umas mãos mais cuidadas do que as minhas… E em boa verdade se diga que teria ganho mais dinheiro a posar para as fotografias, tal foi a quantidade de gente que me fotografou e que até posou comigo… Para a próxima vou pensar nisso!

FEIRA MEDIEVAL DE SINTRA

16, 17 e 18 de Julho de 2010. Esta era a minha banca, que afinal se chama stand. Apesar de muito vento e calor de dia e muito vento e frio à noite, correu bem! Com excepção de uns alfinetes e de uma estaca, não me esqueci de nada! E mesmo isso, foi-me emprestado pela vizinhança, que, mais uma vez, era muito simpática. Estou muito cansada, mas contente. Estava à espera de vender mais, mas parece que a tão falada crise está mesmo instalada e as pessoas não compram tanto como gostariam. De qualquer modo não me posso queixar; sempre trouxe algum dinheiro para casa, divulguei o meu trabalho e ouvi muitos elogios às minhas peças, o que me deixa um pouco babada e motivada para continuar. E entreguei muitos cartões a pessoas interessadas, o que talvez traga alguns frutos lá para a frente… E ainda obtive uma ou duas informações preciosas se quiser apostar nisto das feiras.

Já agora, obrigada, mais uma vez, aos amigos e familiares que por lá apareceram e que contribuíram com a sua opinião, companhia e força (e algum dinheirinho!) para eu continuar por esta nova via da cerâmica.

ULTIMA FORNADA

Uf! Tirei agora mesmo as ultimas peças do forno, mesmo a tempo de ir para a Feira Medieval de Sintra. Saíram todas bem! Acho que já estou a melhorar com os vidrados… Doze placas relevadas, doze tacinhas e uma taça alta. E já não tenho mais barro! Nem mais nenhuma feira em vista, para já. Espero vender bastante, estou a precisar do dinheiro. Se não, pelo menos divulgo o meu trabalho, o que é sempre bom. E oiço opiniões… Já tenho tudo pronto, só falta carregar o carro e fazer-me à estrada. Hoje a feira abre às 18h, mas as coisas têm de estar montadas duas horas antes. Espero que não chova, o tempo está esquisito e em Sintra nunca se sabe…

AHAHAH!

Vim agora de Sintra, por sorte, vi ontem no regulamento que as bancas tinham de ser montadas na véspera e eu estava convencida que era só no próprio dia. Cheguei por volta das onze e já lá estava imensa gente a tentar perceber onde é que iria ficar. Os lugares não são marcados, o que acho bem e disseram-me que os últimos a chegar, nas feiras medievais, «ficam lá para os fundos, ao pé dos camelos…». Bom, desta já escapei; até simpatizo com estes animais, mas parece que ao pé deles o cheiro não é dos melhores e depois, não tenho nada para lhes dizer, nem eles a mim. Portanto, a coisa está a melhorar. Entretanto lá me deram o espacinho que eu lhes tinha dito que iria precisar. Ahahah! Até me deu vontade de rir, acho que vou ser a pessoa com a banquinha mais pequena da feira! Vou ficar entre duas tendas grandes, não sei se alguém vai dar por mim!… Mas já valeu ter lá ído hoje, os cavaletes têm de levar uns calços e a extensão que eu ía levar tem de ser maior. E pronto! Agora é só tratar dos últimos pormenores que ainda faltam e amanhã lá vou eu! Vamos lá a ver no que isto vai dar…

SÉRIE FLORES

Quando há três meses comecei a pensar em dedicar-me à cerâmica, ainda não sabia bem o que é que ía fazer. Tinha já duas ou três placas relevadas que costumo vender na loja do Mosteiro dos Jerónimos e algumas ideias dentro desse género. Comprei barro e desatei a fazer peças a torto e a direito; foi um delírio, até porque o trabalho de restauro de azulejos não o permite, claro. Muita coisa foi posta de parte, umas por questões técnicas que ainda não domino, outras porque as peças não correspondiam às minhas expectativas. Nessa altura comecei a fazer estas placas, que, ao contrário das outras que eu tenho, já estavam pensadas para terem elementos vidrados. A ideia era fazer uma série de sete diferentes, que, ao ser vidrada de inúmeras cores, se pode desmultiplicar por uma muito maior. Fiz quatro e já não sei bem porquê, abandonei a ideia. E elas ali têm estado, há quase dois meses na prateleira, a ver o que é que lhes acontece. Hoje resolvi vidrá-las, ainda a tempo da Feira de Sintra. Finalmente dei-lhes o acabamento que tinha pensado e logo à noite, forno com elas. Se gostar do resultado, talvez depois faça as outras três que ainda faltam.

DA MINHA AVÓ

Se a minha avó Isaura, que eu adorava, ainda fosse viva, teria hoje 95 anos. Foi a vê-la costurar que eu aprendi a coser à máquina e era também comum vê-la a fazer crochet, quando me levava ao jardim, entretida com rendas e outros lavores semelhantes que as meninas de há cem anos aprendiam na escola. Foi da minha avó que eu herdei esta máquina de costura e também três caixotes com tecidos, lençóis, naperons, rendas e linhas, que me ocupam um espaço precioso em casa, mas que nunca me consegui desfazer.

Ando-me a preparar para a Feira Medieval de Sintra. Em Elvas percebi que o aspecto da barraquinha, bem como o de quem vende, é muito importante para chamar a atenção de quem passa. Com lençóis velhos, estou a fazer umas forras para as bancadas, aos quais vou aplicar umas rendas soltas que tenho lá em casa. Nada de excessos. Fiz também uma saia comprida, franzida na cintura, que aproveitei de um lençol velho normalíssimo (tenho lá uns de linho, que ficariam maravilhosos, mas parte-se-me o coração só de pensar em meter-lhes a tesoura…). Já pedi a uma amiga, que é um ás da costura, para me fazer uma touca, daquelas justinhas à cabeça e que se usavam na idade média, não só para dormir, como também para sair à rua. E depois, com um avental que uso aqui na oficina,uma camisa de mangas compridas e dois ou três acessórios, fica pronto o brilharete!