DE VOLTA À PAREDE

Quando na semana passada a equipa do Doc Station me filmou para o documentário que estão a fazer sobre Portugal, o Marcus, o realizador, perguntou-me se eu ficava contente quando via os azulejos a voltarem para a parede, ou se preferia fazer outras fases do trabalho e o resultado final não era assim tão importante para mim. Respondi-lhe que gostava bastante de fazer algumas tarefas inerentes ao processo de restaurar azulejos, que me agrada especialmente fazer colagens de fragmentos e também preenchimentos de lacunas e falhas de vidrado; mas que o objectivo final é sempre ver os azulejos voltarem para a parede, foi para isso que foram concebidos e que estava contente, claro. E claro, fico contente também e, principalmente, porque essa fase significa que é mais um trabalho a chegar ao fim…  Aliás, dá para ver, não?

INTERNACIONALIZAÇÃO!

Aconteceu-me uma coisa incrível: há duas ou três semanas fui contactada por uma produtora de cinema alemã que me telefonou a perguntar-me se eu estaria interessada em participar num documentário sobre Portugal,  que era para passar no Canal Arte e mais qualquer coisa sobre azulejaria e mais não sei quê do fado e fotografar a oficina logo no dia seguinte e mais blá blá, blá blá… Fui completamente apanhada de surpresa e fiquei tão estupefacta que deixei de ouvir. Ainda pensei que fosse alguém a gozar comigo e pedi à pessoa para me mandar um e-mail a explicar tudo de novo desde o princípio. Ao que parece, o realizador descobriu-me pela net lá na Alemanha (isto funciona mesmo!) e gostou bastante do meu blog, de tal modo que a ideia seria introduzir a Azulejaria Portuguesa no documentário através de mim e do meu trabalho… Bom, eu alinhei, claro, sempre espero divertir-me! Amanhã vêm cá filmar-me à oficina, que está caótica, para variar; mas azulejos para restaurar aqui não faltam e, com um bocado de sorte, ainda lhes consigo impingir também as minhas peças de cerâmica! Caramba!… Com esta internacionalização, já me estou a ver com várias oficinas espalhadas pelas Marvilas da principais capitais europeias! Eh, eh, eh!

PIGMENTOS

Comecei a fazer a reintegração cromática dos preenchimentos dos azulejos da Igreja da Lousã. Estou a utilizar pigmentos aglutinados em Paraloid-B72, o que é sempre um trabalho moroso. Como os azulejos não vão ser reassentes com argamassa tradicional, podemos já ir avançando com esta tarefa, uma vez que não terão de ir para dentro de água. A ideia é despachar o trabalho o mais possível aqui na oficina, para depois, lá na Lousã, só nos termos de preocupar com os retoques finais, já com os azulejos na parede.

PREENCHIMENTOS

Estive a fazer e a acabar os preenchimentos de falhas de vidrado dos azulejos da Igreja Matriz da Lousã. Quero despachar isto o mais rápido possível e já estão todos prontos para a integração cromática. Ainda assim, dos cerca de 90 que foram levantados, só 36 é que precisaram de colagens e preenchimentos; tendo em conta que a maioria deles estava já fracturada na parede e o conjunto encontra-se assente com cimento cola, não foi mau de todo. Para a semana voltamos para a Lousã, já temos tudo combinado com o ladrilhador que os vai assentar de novo na parede e, se tudo correr bem, damos por terminada a intervenção. Confesso que estou ansiosa por voltar ao meu trabalho de cerâmica…

AZULEJOS EM RISCO DE DESTACAMENTO

Acabámos o levantamento dos azulejos em risco de destacamento do painel da Igreja da Lousã. Todos os que ficaram estão aderentes (e bem!) à parede. Nalguns casos, os azulejos estavam apenas presos pelas juntas e soltaram-se mal estas foram abertas. Noutros casos, os azulejos estavam já fracturados ao meio, estando uma metade solta e a outra completamente presa com cimento cola, o que se revelou um problema para conseguir retirá-la, mesmo abrindo as juntas, tendo em conta que a espessura dos azulejos é mínima. Depois do exemplo de uma que retirámos toda partida, decidimos arriscar colar as outras mesmo na parede; apesar das colagens poderem não ficar perfeitas, é preferível a ter de restaurar inúmeras fracturas e pequenas falhas de vidrado que, por mais faceado que esteja, acabam sempre por se perder.

CALÇADA MARQUÊS DE ABRANTES

Na sexta-feira passada fui ver este prédio na Calçada Marquês de Abrantes, em Lisboa. Fui contactada por uma empresa para uma sub-empreitada de conservação e restauro dos azulejos do edifício. Estive quase três dias para estruturar uma metodologia de trabalho e respectivos preços unitários e por metro quadrado, que deveria ser entregue até hoje, sem falta – o que já aconteceu.

A intervenção consistirá no levantamento de todos os azulejos interiores existentes nas chaminés das cozinhas e nos rodapés das escadas e manufactura de réplicas para posterior assentamento. Quanto às fachadas exteriores, quatro no total, teremos de verificar o estado de adesão dos azulejos nos quatro pisos e levantar os que estiverem em risco de destacamento. Depois, todo o conjunto será tratado in situ e serão também feitas as réplicas necessárias para colmatar lacunas e azulejos em muito mau estado de conservação.

Para o piso zero, que já não tem azulejos em duas das fachadas e as outras duas mantêm apenas poucos originais, está contemplado o revestimento com réplicas que lhe devolva a sua integridade original. Estamos a falar de quase cerca de oitenta metros quadrados, coisa pouca, portanto…

ASSIM, AINDA NÃO TINHA VISTO.

Bem sei que azulejos são azulejos e eu, mais do que muitas pessoas, deveria pensar assim. A questão é que, depois de já ter trabalhado em conservação e restauro de painéis de enxaquetados, de conjuntos azulejares relevados e de inúmeros exemplares dos séc. XVII e XVIII, não consigo deixar de sentir um certo preconceito em relação a este painel de 1982 no qual agora estamos intervir. Os azulejos são do piorzinho que já vi; do mais industrial possível, que nem chegam a ter meio centímetro de espessura, ( como eu adoro sentir o peso dos azulejos de aresta-viva!). Para ainda abrilhantar mais o ramalhete, foram  todos assentes com cimento cola, porque assim «isto nunca mais sai daqui!» O pior é que sai mesmo e, cereja em cima do bolo, não fizeram espaçamento de juntas, estando assim uns quantos desgraçados já fracturados na parede e em alta compressão com risco de queda iminente! Mais uma vez, cá está a brigada do restauro para tentar remediar as asneiras dos outros! Estava tão contente a fazer os meus relógios solares…

ALOJAMENTO

Já perdi a noção de quantos quartos é que já estive alojada ao longo destes anos todos a trabalhar em restauro de azulejos. Genial teria sido fotografá-los um a um desde o princípio, mas passou-me e agora já não faz sentido. Entre casas alugadas, pensões modestas, outras melhorzinhas, casas de conhecidos e um ou outro hotel, já dormi por várias terras de norte a sul do país e até no Brasil. Em Matosinhos fiquei dois meses alojada num quarto minúsculo, onde quase só cabia uma cama de solteiro; em Sto. Tirso, na saudosa Pensão Caroço, estive várias vezes num quarto em que se entrava directamente pela casa-de-banho e em Paço de Sousa fiquei a dormir na Aldeia da Casa do Gaiato, num quarto lindo cujas janelas de guilhotina abriam directamente para o campo e por onde se fazia sentir o aroma da terra trabalhada.

Desta vez fiquei numa residencial na Lousã, simpática; num quarto simpático no segundo andar. Não fosse a vista para as traseiras e nunca veria deste ângulo a igreja onde estamos a trabalhar… De tardoz para tardoz.

VIVENDAS E JARDINS!

Estou a fazer um segundo Relógio de Sol, este mais pequeno do que o primeiro. É um mostrador simples, que depois poderei completar com elementos variados, carimbos e relevos. A minha ideia, para já, é ainda fazer mais um, talvez mais clássico e ficar com um conjunto de três para ir tentar vender nalguns hortos. Sintra será um bom local e Sesimbra também. E claro, Lisboa. E Cascais, lembrei-me agora. Têm de ser lugares numa zona de vivendas com jardim e quanto maiores as vivendas e os jardins, melhor. Estou satisfeita com o meu trabalho, há quatro meses que não páro de produzir e continuo cheia de força e ideias.

Amanhã vamos para a Lousã, eu e o Loubet, começar o trabalho de restauro dos azulejos da Igreja Matriz. Vou ter de interromper a cerâmica por agora, mas preciso urgentemente que me entrem uns €€€ na conta. Lá se vai a criatividade por uns tempos, mas segundo me conheço, vou estar sempre a pensar nisto. E vendo bem, talvez até seja bom criar um certo afastamento daqui da oficina.