Após mais de dois anos de espera depois da entrega de um orçamento complexo, pelo qual nem sequer recebi acuso recepção, obrigado; fui há pouco tempo contactada por uma empresa que vai pegar em toda a obra de remodelação de um prédio na Baixa Pombalina. Todo o orçamento relativo a trabalhos de conservação e restauro dos azulejos existentes em quatro pisos tem de ser revisto para se começar a obra em breve. Se o nosso orçamento for adjudicado, supostamente eu, o Loubet e o Ivo, o núcleo duro aqui da oficina, vai ter de levantar das paredes cerca de seis mil e tal azulejos, para posterior tratamento e reassentamento. Como eles agora estão no Pinhão, a 300 Km daqui, com um trabalho que ainda vai demorar mais dois ou três meses, isto vai ter de haver aqui muita ginástica e jogo de cintura. E ainda vamos ter de arranjar uma equipa, claro… Bom, nada que não tenhamos já bastante experiência; não é a primeira vez que somos responsáveis por trabalhos grandes e também já tivemos de desmultiplicar-nos antes, com duas obras ao mesmo tempo. E com organização, a coisa vai.
Categoria: RESTAURO
ARGAMASSA TRADICIONAL
Acabei de chegar do Palácio Centeno, onde fui substituir dois azulejos em muito mau estado de conservação por duas réplicas. Estive a fazer de trolha, o que, de vez em quando me sabe bem: picar rebocos, fazer argamassa, chapar massa na parede. Mas como não sou trolha mesmo a sério, não consigo ter a noção de quanta argamassa precisava e então fiz imensa quantidade. Bom, o que vale é que como é à base de cal aérea e areia lavada, se a cobrir com água, já aqui fica para um próximo trabalho…
QUINTA DE S. VICENTE
Na segunda-feira fui contactada por uma colega de pintura mural para ir ver um trabalho em Telheiras. Trata-se de uma capela particular, na antiga Quinta de S. Vicente, revestida a silhares de azulejos com albarradas e palmitos em azul e branco sobre rodapé duplo a manganês. Os estuques estão em muito mau estado de conservação e os azulejos foram completamente vandalizados, faltando «só» cerca de 270, uma vez que os outros estão bem aderentes à parede, sendo por isso mais difíceis de roubar. A ideia é fazermos um orçamento em conjunto, azulejo e pintura mural, para conservação e restauro de toda a capela. Pela minha parte, o grosso do trabalho será a manufactura de réplicas para colmatarem as lacunas, o qual, com o resto da intervenção, demorará cerca de dois meses e meio a fazer-se. Se o orçamento for aceite, imagino que o trabalho seja para breve. O que me dava um jeitaço!…
PALÁCIO CENTENO
Hoje fui chamada para uma intervenção SOS no Palácio Centeno, em Lisboa, actual Reitoria da Universidade Técnica. Dois dos azulejos dos silhares do átrio de entrada encontram-se praticamente sem vidrado, devido à enorme humidade das paredes, cuja presença de sais já é bastante visível e, mais tarde ou mais cedo, vai acabar por danificar o restante conjunto azulejar. Há dois anos fizemos lá uma intervenção de conservação e restauro dos azulejos, mas pelos vistos os problemas com a alvenaria mantêm-se e assim o trabalho acaba por ser um bocado inglório. A minha missão, agora, é tratar de fazer duas réplicas para substituir esses dois azulejos a tempo do lançamento de um livro no dia 14 deste mês…
FAIANÇA
Acabei finalmente de restaurar este candeeiro em faiança, o ultimo assunto pendente ainda do ano passado. Estive a retocar a integração cromática dos preenchimentos, mas como não trouxe os óculos, estou um bocado com os olhos em bico e parece-me terminado. Pelo sim, pelo não, é melhor depois olhar para ele outra vez e ver se está tudo bem antes de o entregar, mas para já parece-me que sim. E pronto! A partir de agora tenho todo o tempo do mundo para não saber o que é que hei-de fazer…
CAPELA DO SENHOR DOS AFLITOS
Em 2002 eu e o Loubet fomos contactados pela delegação do IGESPAR de Évora para irmos fazer um trabalho na Capela do Senhor dos Aflitos, dentro do castelo de Campo Maior. Tratava-se de levantar da parede sete ou oito silhares de azulejos, de origem desconhecida e completamente trocados. Depois do levantamento, trouxemos os azulejos aqui para a oficina, removemos as argamassas dos tardozes, consolidámos falhas de vidrado e colámos fracturas e depois, com grande paciência, organizámos os puzzles, ainda conseguindo formar uma série de desenhos, apesar de terem ficado soltos uma série de azulejos com caras de anjos, concheados e bases de colunas, que não entravam em lado nenhum. O que nos tinha sido proposto, nessa fase, estava terminado e guardámos os azulejos em caixas devidamente identificadas por painéis e motivos soltos.
Entretanto, a pessoa que nos tinha contactado saiu do IGESPAR e na altura de entregar os azulejos, ninguém sabia bem com quem se deveria tratar do assunto e depois foi havendo várias mudanças no IGESPAR e nas Delegações Regionais, pelo que os azulejos aqui foram ficando, encaixotados e bem guardados num cantinho. Até que hoje, finalmente, veio alguém de Évora cá buscá-los. Ao que parece e, se tudo correr bem, porque não há dinheiro para nada e muito menos na cultura, a ideia é montá-los em suporte móvel de acrílico e talvez voltem para a capela de onde saíram. Espero bem que sim; a ver vamos.
ASSUNTOS PENDENTES
Mais uma coisinha pendente já há algum tempo aqui na oficina: um candeeiro de pé alto, todo em faiança, de umas pessoas amigas. Pelo que sei, levou um forte encontrão de uma criança brincalhona e caiu para o lado, partindo-se em vários pedaços. Como pesa bastante e tem um eixo interior em ferro, que agora está um bocado torto, a minha primeira impressão foi que, sózinha, não o conseguiria colar. No entanto, aqui há uns tempos e, com a ajuda do Loubet, lá conseguimos montar umas peças nas outras, um a agarrar por cima e o outro a agarrar por baixo. O mais difícil ficou feito e entretanto nunca mais lhe mexi. Vou aproveitar o balanço de tratar de assuntos pendentes e ver se de uma vez por todas o acabo de restaurar e o despacho de volta para a casinha dele ainda antes do ano novo…
IMPOSTOS!
Há coisa de duas semanas fui novamente contactada pela Mansão de Marvila para fazer um novo orçamento, desta vez para o restauro dos azulejos do átrio de entrada e corredor adjacente ao mesmo. Resolvi separar os trabalhos e fazer dois orçamentos, um para cada coisa, até porque a tipologia existente em cada lado é diferente uma da outra, sendo os do átrio bastante mais antigos e com problemas mais específicos, que necessitam de uma intervenção mais morosa. Tratam-se de dez silhares de azulejos do séc. XVIII, em muito mau estado de conservação, estando um deles, com cerca de 180 azulejos, em completo risco de destacamento da parede.
Assim sendo, hoje fiz uma pequena pausa antes de recomeçar a fazer as réplicas para a In Situ e tenho estado entretida a fazer os orçamentos, que cada vez ficam mais caros; não por eu estar a ganhar mais, que os meus honorários são sempre os mesmos há que tempos, mas porque tive a agradável surpresa de saber que os meus impostos foram aumentados em um e meio por cento… E isso também entra nas contas. Irra!…
TERMINADO!
Está terminado! Acabámos ontem o trabalho de conservação e restauro dos painéis de azulejos da Igreja da Lousã. Ainda houve uma pequena confusão com o padre, que nos acusou de termos enchido a igreja de pó (o que é verdade) e eu, ao contrário do que ele pensa, ainda estive para lhe dizer que estas coisas não se fazem por obra e graça do Espírito Santo, o que em muito nos facilitaria o trabalho (aliás, nesse caso, nem os azulejos estariam a cair da parede…). Mas enfim, lá me controlei e deixei o Loubet explicar-lhe tudo muito pacientemente com a sua calma habitual… No final acabou tudo em bem e ele ficou satisfeito com o trabalho. E agora, venham os €€€, que muita falta fazem!
DESDE 1837
Não sei se terei grandes benefícios por ter sido filmada para o Canal ARTE. Também não é coisa que pense muito, se o documentário passar é só lá para daqui a um ano e até lá tenho de fazer pela vidinha, que não vivo de rendimentos. Mas para já, para já, alguma coisa já beneficiei por ter conhecido a equipa do DocStation; foram eles quem me deram a dica deste painel de azulejos a precisar de restauro, num lugar bem conhecido de Lisboa e que também vai aparecer no mesmo filme: os Pastéis de Belém! Entrei em contacto com a gerência, muito simpática, por sinal e lá fui ver o seu estado de conservação (dos azulejos, não da gerência) na sexta-feira passada. Aproveitei para beber um café e comer um pastelinho, claro. Se o orçamento for aceite, o trabalho vai ter de ser feito a partir das onze da noite, o que terá as suas vantagens: para além de não ter magotes de gente a olhar para mim, vou conseguir manter equilibrado o meu nível de açúcar no sangue…















