Acabámos o levantamento dos azulejos em risco de destacamento do painel da Igreja da Lousã. Todos os que ficaram estão aderentes (e bem!) à parede. Nalguns casos, os azulejos estavam apenas presos pelas juntas e soltaram-se mal estas foram abertas. Noutros casos, os azulejos estavam já fracturados ao meio, estando uma metade solta e a outra completamente presa com cimento cola, o que se revelou um problema para conseguir retirá-la, mesmo abrindo as juntas, tendo em conta que a espessura dos azulejos é mínima. Depois do exemplo de uma que retirámos toda partida, decidimos arriscar colar as outras mesmo na parede; apesar das colagens poderem não ficar perfeitas, é preferível a ter de restaurar inúmeras fracturas e pequenas falhas de vidrado que, por mais faceado que esteja, acabam sempre por se perder.
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CALÇADA MARQUÊS DE ABRANTES
Na sexta-feira passada fui ver este prédio na Calçada Marquês de Abrantes, em Lisboa. Fui contactada por uma empresa para uma sub-empreitada de conservação e restauro dos azulejos do edifício. Estive quase três dias para estruturar uma metodologia de trabalho e respectivos preços unitários e por metro quadrado, que deveria ser entregue até hoje, sem falta – o que já aconteceu.
A intervenção consistirá no levantamento de todos os azulejos interiores existentes nas chaminés das cozinhas e nos rodapés das escadas e manufactura de réplicas para posterior assentamento. Quanto às fachadas exteriores, quatro no total, teremos de verificar o estado de adesão dos azulejos nos quatro pisos e levantar os que estiverem em risco de destacamento. Depois, todo o conjunto será tratado in situ e serão também feitas as réplicas necessárias para colmatar lacunas e azulejos em muito mau estado de conservação.
Para o piso zero, que já não tem azulejos em duas das fachadas e as outras duas mantêm apenas poucos originais, está contemplado o revestimento com réplicas que lhe devolva a sua integridade original. Estamos a falar de quase cerca de oitenta metros quadrados, coisa pouca, portanto…
AZULEJOS FRACTURADOS
SOLINHO
A minha cabeça não tem parado, por mais que eu tente. Tenho uns quantos azulejos da Igreja da Lousã para restaurar, mas têm tão pouco carisma que nem me apetece tocar-lhes. Falta-lhes peso, estrutura que se sinta. Tenho andado a pensar nos meus relógios de sol e ainda não descansei enquanto não acabei os moldes dos dois primeiros que fiz, peças maciças. Estou ansiosa por ir comprar barro refractário! Não resisti e modelei mais este pequeno solinho, que ainda não sei para o que é que vai servir, talvez para uma aplicação. Quero fazer mais umas quantas e também novos carimbos, para depois poder trabalhar sobre mostradores simples, ainda na mesma linha das placas em cerâmica relevadas que tenho andado a fazer.
ASSIM, AINDA NÃO TINHA VISTO.
Bem sei que azulejos são azulejos e eu, mais do que muitas pessoas, deveria pensar assim. A questão é que, depois de já ter trabalhado em conservação e restauro de painéis de enxaquetados, de conjuntos azulejares relevados e de inúmeros exemplares dos séc. XVII e XVIII, não consigo deixar de sentir um certo preconceito em relação a este painel de 1982 no qual agora estamos intervir. Os azulejos são do piorzinho que já vi; do mais industrial possível, que nem chegam a ter meio centímetro de espessura, ( como eu adoro sentir o peso dos azulejos de aresta-viva!). Para ainda abrilhantar mais o ramalhete, foram todos assentes com cimento cola, porque assim «isto nunca mais sai daqui!» O pior é que sai mesmo e, cereja em cima do bolo, não fizeram espaçamento de juntas, estando assim uns quantos desgraçados já fracturados na parede e em alta compressão com risco de queda iminente! Mais uma vez, cá está a brigada do restauro para tentar remediar as asneiras dos outros! Estava tão contente a fazer os meus relógios solares…
ALOJAMENTO
Já perdi a noção de quantos quartos é que já estive alojada ao longo destes anos todos a trabalhar em restauro de azulejos. Genial teria sido fotografá-los um a um desde o princípio, mas passou-me e agora já não faz sentido. Entre casas alugadas, pensões modestas, outras melhorzinhas, casas de conhecidos e um ou outro hotel, já dormi por várias terras de norte a sul do país e até no Brasil. Em Matosinhos fiquei dois meses alojada num quarto minúsculo, onde quase só cabia uma cama de solteiro; em Sto. Tirso, na saudosa Pensão Caroço, estive várias vezes num quarto em que se entrava directamente pela casa-de-banho e em Paço de Sousa fiquei a dormir na Aldeia da Casa do Gaiato, num quarto lindo cujas janelas de guilhotina abriam directamente para o campo e por onde se fazia sentir o aroma da terra trabalhada.
Desta vez fiquei numa residencial na Lousã, simpática; num quarto simpático no segundo andar. Não fosse a vista para as traseiras e nunca veria deste ângulo a igreja onde estamos a trabalhar… De tardoz para tardoz.
BENEFÍCIOS DE AMASSAR BARRO
Hoje, enquanto fazia mais não sei quantos azulejos manuais em barro, ocorreu-me esta bela ideia: por que não criar um protocolo com uma academia de ginástica para que faça uma sucursal aqui na oficina? Seria uma óptima maneira de eu ter o barro todo amassado, sem ter de investir em nenhuma fieira, que só ocupa espaço e gasta electricidade e ainda ganhava dinheiro, claro; porque essas coisas pagam-se! Na brochura publicitária do ginásio, ou, como se diz agora, flyer, poder-se-ia ler «Método inovador, com resultados visíveis ao fim de apenas três dias!», o que não seria mentira nenhuma, não senhor, que eu posso comprovar por mim própria! Vejamos os benefícios de amassar o barro: trabalham-se os braços, os quais adquirem uma nova musculatura; trabalham-se os abdominais, ficando com a barriga mais rija e ainda se trabalham as pernas, que ficam mais tonificadas de tanto flectir para cima e para baixo ao pegar nos pacotes de 12 quilinhos de barro e levá-los de um lado para o outro! Acreditem, em três dias apenas, já tudo isso me dói, é melhor do que fazer remo! Nem água falta, porque se sua as estopinhas… E já nem falo do lado terapêutico de amassar barro! Para que se evitem bolhas de ar, é fundamental bater o barro com muita força e aqui, convém pensar no chefe, ou no governo, ou nalguma coisa que nos esteja a chatear mesmo a sério, com a vantagem de à noite se cair na cama a dormir sem pensar em problema nenhum. Até se poupa na farmácia.
Vou já à net ver contactos de ginásios. Tenho a certeza que não vai faltar gente interessada, tudo aqui a amassar barro e eu sempre a fazer azulejos manuais. Em pouco tempo devo ter mais do que suficientes para revestir a Baixa Pombalina, não? Olha… vou aproveitar e vejo já também se descubro o telefone do António Costa…
50
Continuo a fazer as chacotas manuais para as réplicas dos azulejos da Igreja da Ota. Segundo as nossas contas, vão ser precisas cerca de 120, mas, pelo sim, pelo não, vou fazer umas 140, assim já há uma margem para enganos ou para qualquer azar. Estou a fazer tudo muito de-va-ga-ri-nho, que já não posso com os braços. Se estivesse com o tempo contado, lá teria de acelerar e, provavelmente, hoje já tinha tudo feito, mas assim vou com calma para não cair para o lado sem me mexer. Portanto, neste momento, já há 50. Tenho estado a fazer pilhas de dez, para o barro ir secando devagar e sem empenos. E amanhã, quando chegar, a primeira coisa a fazer é virar as placas todas ao contrário. E depois é continuar a amassar…
CALOS NAS MÃOS
Comecei a fazer as chacotas manuais para as réplicas dos azulejos da igreja da Ota. Ufa! Já há algum tempo que não amassava barro e estou a suar em bica, apesar de nem estar assim tanto calor! Este processo é do mais artesanal que existe, o que tem a sua piada e confere aos azulejos um aspecto mais semelhante aos originais; no entanto, a idade já não o vai permitindo! Tenho de ganhar algum dinheirinho e ver se invisto numa fieira e, já agora, numa máquina de fazer lastras (como é que vão caber aqui na oficina é que não sei, mas depois se verá). Os meus calinhos de estimação, que estavam tão quietinhos, é que já se começam a manifestar da pressão que eu faço no rolo da massa. E ainda só vou nas 30 chacotas…
BARRO VERDE
Vou começar a fazer cerca de 150 chacotas manuais para um trabalho de restauro dos azulejos da Igreja da Ota. O trabalho começou quase há um ano e entretanto ficou parado, já há uma série de meses, para obras na nave central e também na cobertura da igreja. Comprei estes pacotes de terracota ainda antes do verão, para começar a fazer as chacotas, mas entretanto comecei a entusiasmar-me com as minhas peças e com as feiras e nunca mais peguei nisto. Não há ainda nenhuma previsão para recomeçar os trabalhos de assentamento dos azulejos que tirámos da parede, mas é melhor eu começar a tratar de fazer as réplicas o quanto antes, para poderem secar à vontade e eu ter tempo para fazer experiências de cor com calma. Se tudo correr como é habitual, o padre há-de telefonar de repente e diz-nos para ir logo no dia seguinte… e depois é o stress do costume. O barro já está a ficar verde e, se não me ponho a pau, eu também.













