Abriu a época.
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PRODUÇÃO EM SÉRIE
Há coisas que eu dantes – estou a falar de há cerca de uns vinte anos – pensava que nunca iria fazer. E quando, há dois anos, me comecei a aventurar pelos caminhos da cerâmica, em paralelo com os da conservação e restauro de azulejos, ainda mantinha essa mesma convicção, a de que havia coisas que eu nunca iria fazer. Até agora.
Fui convidada para participar numa pequena feirinha de Natal, em meados de Dezembro. A primeira reacção foi recusar – a minha produção cerâmica, que ia tão lançada, tem estado mais parada do que o Mar Morto já há que tempos; os mesmos que têm durado as intervenções de restauro que surgiram entretanto e das quais vivo. E como não consigo desmultiplicar-me mais do que em três ou quatro, está parada; ou seja, praticamente não tenho peças nenhumas.
Depois e uma vez que o ritmo dos trabalhos e dos orçamentos está a abrandar muito consideravelmente, pensei melhor e decidi então aceitar o convite que me foi feito e participar na tal feirinha – não tenho nada a perder, antes pelo contrário. Ok, muito bem, e com que peças? Toda a gente sabe que as coisas não andam bem para ninguém (pronto, aqui podia fazer uns à partes, mas não é o momento) e não há dinheiro quase para se viver, quanto mais para se andar a gastar em prendinhas de Natal. Portanto, o segredo é fazer umas peças baratinhas, que a tradição manda sempre oferecer qualquer coisa e as tradições têm muita força. E como é que se podem fazer peças baratinhas, quando o que se produz é 100% manual e artesanal? Baratinhas e, já agora, minimamente apelativas, claro? É o que ando a tentar perceber e a fazer há cerca de uma semana – apesar de não estar lá assim muito convencida. Mas agora é tarde para voltar atrás.
CINCO
ESTADO LASTIMÁVEL
Estava redondamente enganada quando pensei que delegando alguns trabalhos para os meus colegas, ficando a meu cargo a coordenação e algumas tarefas mais do meu agrado – que também já mereço; ao fim de quase vinte anos a fazer conservação e restauro de azulejos! -, dizia eu, que pensava que iria ficar com tempo livre para dar largas à criatividade e dedicar mais tempo à minha produção cerâmica, que ultimamente tem estado mais parada do que o Mar Morto. Mas pronto; enganei-me redondamente e, em abono da verdade, nem cerâmica, nem este espaço de escrita que eu tanto prezo e que também já foi mais dinamizado e nem sequer as tais tarefas de restauro que me agradam mais meter a mão na massa: a papelada e o escritório, salvo raras excepções, têm-me ocupado o tempo todo.
Relatórios, orçamentos, contas, IVAs, fichas de inventário, computador, telefonemas. Durante todo o dia e ao serão também. Agora tenho de fazer mais um orçamento para o Museu Militar – os azulejos da escadaria de acesso ao gabinete do Sr. Director estão num estado lastimável e há muito tempo que precisam de uma intervenção. Eu é que não consigo pensar nisso agora; vai ter de esperar mais uns dias, pelo menos os suficientes para eu tirar umas férias e (tentar) limpar a cabeça.
Para já, amanhã vou começar a tratar da fachada do prédio em Sta. Catarina. Com andaime, sapatos de biqueira de aço, máscara e capacete.
ESCOLA ANTÓNIO ARROIO
Acabei de chegar da Escola António Arroio, onde hoje fui dar uma palestra. Uma palestra informal, organizada por alunos do 12º ano, dentro da disciplina de Gestão das Artes e para alunos do 12º ano que estão a acabar o ensino secundário e se vêem na iminência de escolher um rumo – muitos deles, se calhar, um bocado perdidos, tal como eu estava quando acabei o 12º ano. Fui convidada na qualidade de ex-aluna da escola e a ideia era falar sobre o meu percurso desde que de lá saí. Tive plateia cheia e a coisa correu bem; mostrei fotografias do meu trabalho e estava muita gente atenta e interessada, houve muitas perguntas e respostas sobre cerâmica e principalmente, sobre conservação e restauro de azulejos. E também sobre os prós e os contras de se ser trabalhador independente. Foram quase duas horas de conversa – que eu não me calo – e acabou com uma salva de palmas. Saí de lá satisfeita e, ao que parece, eles também. Obrigada pelo convite!
PRIORIDADES
Pausa no Museu Militar – com este tempo instável, de aguaceiros, vento e frio, é complicado trabalhar ao ar livre, principalmente quando os materiais que utilizamos reagem mal à água e demoram muito mais a secar.
Tenho aproveitado para vir para a oficina; trabalho por fazer aqui não falta e eu não sou do género de ficar em casa. Gostaria de recomeçar a minha produção cerâmica, mas a coisa não está fácil; acabo por gastar o tempo (dispersar-me, segundo o meu colega Loubet) com outras questões que, ao fim e ao cabo, também são prioritárias: papelada para organizar, compras para fazer, e-mails para responder e orçamentos para pensar – e escrever. Têm-me chegado às mãos algumas propostas que me interessam, principalmente para manufactura de réplicas de azulejos, e, se é verdade que a maioria delas fica em águas de bacalhau, também é verdade que estou a conseguir aperfeiçoar mapas de fornecedores, tarefas, horas e preços, cada vez mais descriminados e exactos, que servem de base a facilitar futuros orçamentos. Enfim, um trabalho de sapa – mas alguém tem que o fazer.
DESILUDIDA
Aproveitando a minha deslocação a Londres a semana passada, pensei em comprar uma série de ferramentas de cerâmica com as quais sonho há algum tempo e que bem jeito me dariam para o meu trabalho. Depois de alguma investigação na net, onde descobri várias lojas on-line – boas, por sinal -, não dei com nenhuma loja física, daquelas à moda antiga em que a gente pode entrar, falar com o vendedor, ver e mexer no material; enfim, perder-se no meio de tanta oferta que não se encontra por aqui. Achei estranho o facto, mas pensei que, estando por lá, daria com uma dessas lojas. Levaram-me à Putney School of Arts, que tem um departamento de cerâmica, mas eles próprios também não sabiam se ainda estava aberta a última das lojas que existiam em Londres; que agora compravam tudo pela net. Confesso que não esperava por isto e fiquei um bocado desiludida; bem sei que a loja onde me abasteço regularmente aqui também fica fora de Lisboa, mas estamos a falar de Londres – o que é que isso queira dizer.
Como o meu tempo não era muito, acabei por comprar algumas coisitas que lá fui descobrindo nalgumas lojas e que ainda assim me podem vir a dar jeito, apesar de estar pouco convencida. E agora vou mandar vir uma série de material de uma loja on-line, que fica na Irlanda do Norte, onde não penso ir tão cedo.
E AGORA?
De novo na oficina. E agora? Confesso que tenho andado por aqui um pouco às aranhas a tentar organizar-me sobre o que fazer; não é fácil fazer a agulha, assim de repente, de uma fase cheia de trabalho, para outra mais tranquila. Tenho tratado de papelada – finanças, cartas de apresentação, actualização do currículo e organização de fotografias. Mas os dias vão passando e parece que ainda não fiz nada este mês, ou muito pouco. Aproveitando que tenho de cozer as chacotas para as réplicas dos azulejos alicatados para o Palácio da Pena, resolvi também tratar de umas outras, que fiz com o Loubet já há que tempos, para um possível trabalho que nunca foi para a frente e que para ali ficaram, a secar e a ocupar espaço. São chacotas manuais, de 11X11cm, que nem sei bem para que é que irão servir, mas pronto; ficam cozidas e arrumadas e depois logo se vê o que é que se fará com elas. E sempre se rentabiliza uma fornada, que isto não está para desperdícios.
BABADA
Ontem arranjei um tempinho para ir ao Mosteiro de Alcobaça ver a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea, sob o tema «A estética da paixão / A paixão pela estética», na qual participo com uma peça. Fui com a familia, em excursão, claro; todos babados e em conjunto, sempre se trata da minha primeira exposição e mais um bocado, para além de ter faltado à inauguração, nem sequer lá conseguia ir. Ver a minha peça exposta era apenas um dos meus objectivos, estava também curiosa em ver as soluções apresentadas por outros artistas ceramistas – outros, eheh! – para o mesmo tema e confesso que havia um pouco de tudo: trabalhos que gostei muito e outros que nem tanto. Enfim; o normal numa exposição colectiva, acho. Fiquei contente por participar e principalmente por ter sido seleccionada, mas não foi assim uma grande emoção quando vi o meu nome no cartaz dos artistas, ou no catálogo do Igespar – parece até que já sou batida neste tipo de coisas. O que me animaria agora, mesmo mesmo, era vender a dita peça, que muito trabalhinho e gozo me deu a fazer, mas que me irá ocupar um espaço precioso aqui na oficina (mas o melhor será tirar o cavalinho da chuva e começar já a arranjar uma prateleira para ela, que a época em que vivemos não está para estas coisas…)
EXPOSIÇÃO
Inserida nas Jornadas Europeias do Património, inaugurou no dia 24 de Setembro, a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea, «A estética da paixão», no Mosteiro de Alcobaça e onde está a minha peça «Paixão que consome», feita em barro refractário e porcelana. Até dia 23 de Outubro, espero ter um tempinho para lá ir…









