BABADA

Ontem arranjei um tempinho para ir ao Mosteiro de Alcobaça ver a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea, sob o tema «A estética da paixão / A paixão pela estética», na qual participo com uma peça. Fui com a familia, em excursão, claro; todos babados e em conjunto, sempre se trata da minha primeira exposição e mais um bocado, para além de ter faltado à inauguração, nem sequer lá conseguia ir. Ver a minha peça exposta  era apenas um dos meus objectivos, estava também curiosa em ver as soluções apresentadas por outros artistas ceramistas – outros, eheh! – para o mesmo tema e confesso que havia um pouco de tudo: trabalhos que gostei muito e outros que nem tanto. Enfim; o normal numa exposição colectiva, acho. Fiquei contente por participar e principalmente por ter sido seleccionada, mas não foi assim uma grande emoção quando vi o meu nome no cartaz dos artistas, ou no catálogo do Igespar – parece até que já sou batida neste tipo de coisas. O que me animaria agora, mesmo mesmo, era vender a dita peça, que muito trabalhinho e gozo me deu a fazer, mas que me irá ocupar um espaço precioso aqui na oficina (mas o melhor será tirar o cavalinho da chuva e começar já a arranjar uma prateleira para ela, que a época em que vivemos não está para estas coisas…)

MOSTEIRO DE ALCOBAÇA

Ontem fui ao Mosteiro de Alcobaça levar a minha peça para a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea que irá inaugurar a 24 de Setembro; o prazo de entrega terminava hoje, imagino que tanta antecedência seja para se ter tempo de fazer o catálogo. Confesso que fiquei um pouco preocupada quando a deixei lá empacotada no chão de uma sala, juntamente com outras que já ali estavam – aquelas pernas são muito frágeis e supostamente a peça vai ser manuseada algumas vezes, tanto para ser fotografada, como para depois ser exposta da forma que eu pedi. Enfim, espero que seja tudo gente cuidadosa; o melhor é tentar não pensar muito neste assunto.

SELECCIONADA!

MEMÓRIA CONCEPTUAL E JUSTIFICATIVA:

Peça quadrangular em barro refractário que contém um cone com uma figura humana no seu interior – Paixão que consome.

A escolha do barro refractário remete para o próprio edifício, para a arquitectura monumental em pedra.

A peça é uma caixa que simboliza a vida onde tudo cabe; os abertos e fechados das faces laterais são os seus alicerces; estacas colocadas meticulosamente cujo ritmo regular confere a ideia de estabilidade, tranquilidade, silêncio.

O cone central concâvo no interior da caixa é a paixão que se instala de repente e quebra a regularidade – o indivíduo entrega-se-lhe compulsivamente e deixa-se levar por um turbilhão ruidoso de sentimentos; os quais, reinando sobre a sua vontade, lhe vão consumindo a razão aos poucos, levando-o à perda da sua individualidade.

Ao ser engolido pelo remoinho que a sua própria tempestade bio-química gera, o indivíduo fica refém da paixão; o azul escuro, cor da profundidade e símbolo do infinito e a espiral branca, um sem-fim com a cor da pureza, mas também do isolamento e até mesmo da morte, sugam-no para o fundo, aprisionando-o dentro da caixa, cujas aberturas laterais remetem agora para as grades de uma prisão.

PRONTINHA!

Dou por terminada a minha peça em barro refractário para a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea, que se irá realizar em Setembro no Mosteiro de Alcobaça, sob o tema «A estética da paixão / A paixão pela estética» – mesmo em cima do prazo! Quero enviar ainda hoje a documentação pedida: nome da obra, dimensões, peso, tipo de cozedura, técnicas e materiais utilizados e Memória conceptual e justificativa da peça. E ainda três fotografias. Até dia 30 tem de ser tudo enviado. Estou satisfeita com o resultado, apesar das perninhas que entortaram e que me conseguem deixar com um certo nervoso miudinho – vou mandar as fotos dos lados mais fotogénicos, a ver se a coisa passa… e a ver se me lembro também de fazer uma errata na memória conceptual; tipo, onde se lê «alicerces, estacas firmes colocadas meticulosamente…», leia-se «alicerces, estacas colocadas meticulosamente…» ou mesmo só «alicerces, estacas…», apesar daquilo, muito honestamente, agora me parecer umas franjas, mas isso já é demais e teria de mudar todo o texto e puxar muito pela cabeça. Bom, de qualquer modo, essa questão prende-se só com as minhas expectativas e quem não saiba, é como quem não vê, embora eu já esteja para aqui a fazer reparos a isto tudo; melhor seria era manter-me caladinha. E a zona interior correu bem, estou contente; resultou como eu queria… Na verdade, qual é o máximo que me pode acontecer? É não ser seleccionada. E isso não tem mal nenhum.

CONTAGEM DECRESCENTE

Continua a secar a minha peça em barro refractário e porcelana para a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea. O que eu mais receava aconteceu – as pernas estão todas empenadas, o que me irrita ligeiramente… Tivesse tido mais tempo e este problema teria sido contornado, tinha bastado tapá-las com um pano húmido enquanto todo o resto secava; mas agora paciência, é no que dão as pressas e eu até já sabia. Tenho ainda mais uns dias antes de a enfornar e ainda não estou segura que ela esteja bem seca, apesar do barro já estar com uma tonalidade muito mais clara do que no início. O homem, lá dentro, está há duas semanas de cabeça para baixo, espero que ainda não lhe tenha acontecido nada (o máximo que lhe pode ter acontecido é ter perdido aquele sorriso de felicidade que tinha na cara – o que é normal com qualquer pessoa face a tanta adversidade); nem me arrisco a virar a peça para cima antes de a cozer, estou com medo de partir as pernas, que nesta fase estão bastante frágeis e só de pensar que ainda as tenho de lixar e dar os acabamentos finais, fico logo a tremer, o que não ajuda nada, claro. Bom, o tempo continua a contar e agora é levar isto até ao fim; sempre se aprende mais qualquer coisinha.

PARALELIPÍPEDO!?

Segundo o regulamento para a aceitação das peças na Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea, cada obra não deve pesar mais do que quinze quilos. Como o meu projecto tem estado apenas na minha cabeça durante estes dois meses em que não lhe consegui pegar, só ontem me apercebi, quando meti mãos-à-obra, o quão irreal ele era: uma peça para colocação vertical, quadrangular, com cerca de 50×50 cm de largura e cerca de 15 cm de altura. E grossa; pelo menos dois cm de espessura. Claro que bastou-me desenhar a planta à escala 1:1 para perceber que não iria ser possível executá-la nestes moldes; primeiro porque nem sequer tinha barro suficiente para tal e segundo, logo assim à vista desarmada, a peça iria pesar uns 30 kg! Para além de outras questões várias de execução, algumas um pouco complexas… Bom, felizmente tenho a capacidade de reformular uma ideia rapidamente e, pegando exactamente no mesmo projecto, consegui transformá-la numa peça de colocação horizontal, quadrangular, com cerca de 25×25 cm de largura e cerca de 18 cm de altura – é a vantagem dos paralelipípedos.

EM ANDAMENTO!

Em Março inscrevi-me para uma Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea que se irá realizar em Setembro no Mosteiro de Alcobaça, a propósito das comemorações do episódio histórico de D. Pedro e D. Inês de Castro. A exposição está subordinada ao tema «A estética da paixão / A paixão pela estética» e à primeira vista foi coisa que não me interessou. No entanto o  meu subconsciente, que é tramado, ficou a pensar no assunto e umas horas depois as primeiras ideias para uma peça começavam a ganhar forma. Nessa noite quase não dormi, a minha cabeça estava a mil e na seguinte também não. Resultado: dois dias depois já sabia o que é que ía fazer e mentalmente só me faltava contornar algumas questões técnicas de execução. Na altura estava eu cheia de tempo e até ao final de Junho, o prazo para a entrega da documentação aos promotores do evento, faltavam ainda três meses. Depois apareceu o 88 e a intervenção nos 6300 azulejos, ao fim de mais de dois anos à espera. Agora, para Junho faltam só duas semanas, o que quer dizer que tenho de me despachar com o projecto, com a memória conceptual e claro, com a manufactura da dita peça. Que já está em andamento!