DESILUDIDA

Aproveitando a minha deslocação a Londres a semana passada, pensei em comprar uma série de ferramentas de cerâmica com as quais sonho há algum tempo e que bem jeito me dariam para o meu trabalho. Depois de alguma investigação na net, onde descobri várias lojas on-line – boas, por sinal -, não dei com nenhuma loja física, daquelas à moda antiga em que a gente pode entrar, falar com o vendedor, ver e mexer no material; enfim, perder-se no meio de tanta oferta que não se encontra por aqui. Achei estranho o facto, mas pensei que, estando por lá, daria com uma dessas lojas. Levaram-me à Putney School of Arts, que tem um departamento de cerâmica, mas eles próprios também não sabiam se ainda estava aberta a última das lojas que existiam em Londres; que agora compravam tudo pela net. Confesso que não esperava por isto e fiquei um bocado desiludida; bem sei que a loja onde me abasteço regularmente aqui também fica fora de Lisboa, mas estamos a falar de Londres – o que é que isso queira dizer.

Como o meu tempo não era muito, acabei por comprar algumas coisitas que lá fui descobrindo nalgumas lojas e que ainda assim me podem vir a dar jeito, apesar de estar pouco convencida. E agora vou mandar vir uma série de material de uma loja on-line, que fica na Irlanda do Norte, onde não penso ir tão cedo.

ALMOFARIZ

Na sexta-feira fui ao Palácio da Pena mostrar algumas das minhas (muitas) experiências de brancos que fiz para colmatar as lacunas de azulejos existentes no vão da janela neo-gótica da capela. Apesar de ter comigo duas pequenas amostras dos azulejos originais, os tons eram tão diferentes um do outro que a melhor solução foi lá ir, para ver in-situ e com o director do Palácio, qual era a que melhor se adaptava ao local – se é que alguma se adaptava. Foram escolhidos dois tons que já se assemelham muito aos do restante conjunto e a ideia é vidrar uma chacotas com um e outras com o outro, para garantir uma boa vibração tonal daquela zona, que se encontra cheia de luz.

Como estou lançada nisto de fazer experiências de brancos, resolvi pegar nas amostras escolhidas e, a partir dessas, já me ocorreram mais não sei quantas receitas que posso experimentar – podia ficar assim o resto da vida; as hipóteses desmultiplicam-se a olhos vistos.  Vou partir de um vidrado base que temos aqui na oficina, que nunca usamos e que agora se revelou ser o mais adequado para estas réplicas. O saco estava guardado há que tempos e o pó apanhou alguma humidade, havendo alguns torrões que têm de ser desfeitos no almofariz. É uma tarefa um pouco morosa, mas fico com a impressão de ser uma ceramista a sério, parecida com os senhores que vêm nas imagens dos livros de cerâmica que temos aqui na oficina.

BRANCO

Preciso de vidrar catorze chacotas manuais que fiz para integrarem um vão de janela com azulejos alicatados na capela do Palácio da Pena. Uma coisa simples; mais simples ainda,  aparentemente, quando se tratam de azulejos brancos. Pois é precisamente aqui que está o problema: o branco é uma das cores mais difíceis de se obter quando se trata de fazer réplicas. Há o branco azulado; o branco acinzentado; o branco rosado; o branco amarelado e uma séries de outros brancos; com mais grão ou com mais brilho ou mais acetinado. Comecei hoje a segunda leva de experiências de cor – tem de se começar por algum lado e só depois de se verem resultados é que se podem aperfeiçoar os tons – e, já que estou com a mão na massa, aproveito para que fiquem para mostruário, usando placas de experiências feitas para o efeito, em barro branco e em terracota, uma vez que a cor do barro interfere na cor do vidrado. 

E AGORA?

De novo na oficina. E agora? Confesso que tenho andado por aqui um pouco às aranhas a tentar organizar-me sobre o que fazer; não é fácil fazer a agulha, assim de repente, de uma fase cheia de trabalho, para outra mais tranquila. Tenho tratado de papelada – finanças, cartas de apresentação, actualização do currículo e organização de fotografias. Mas os dias vão passando e parece que ainda não fiz nada este mês, ou muito pouco. Aproveitando que tenho de cozer as chacotas para as réplicas dos azulejos alicatados para o Palácio da Pena, resolvi também tratar de umas outras, que fiz com o Loubet já há que tempos, para um possível trabalho que nunca foi para a frente e que para ali ficaram, a secar e a ocupar espaço. São chacotas manuais, de 11X11cm, que nem sei bem para que é que irão servir, mas pronto; ficam cozidas e arrumadas e depois logo se vê o que é que se fará com elas. E sempre se rentabiliza uma fornada, que isto não está para desperdícios.

CORES

Comecei a trabalhar nas réplicas para integrarem o conjunto azulejar do 88. Como sempre, há pressa na entrega das mesmas, apesar de se lhes explicar que isto não se faz de um dia para o outro. Por acaso consegui comprar chacotas manuais, o que foi uma sorte, pois nem sempre há em stock o número suficiente que se precisa e já vai adiantar o processo. Agora, o costume; fazer experiências de cores, retirar desenhos, vidrar, limpar vidrados, picotar… Felizmente já tenho muitas cores onde me basear e é só fazer alguns acertos, mas entre enfornar e desenfornar, passa um dia.

BABADA

Ontem arranjei um tempinho para ir ao Mosteiro de Alcobaça ver a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea, sob o tema «A estética da paixão / A paixão pela estética», na qual participo com uma peça. Fui com a familia, em excursão, claro; todos babados e em conjunto, sempre se trata da minha primeira exposição e mais um bocado, para além de ter faltado à inauguração, nem sequer lá conseguia ir. Ver a minha peça exposta  era apenas um dos meus objectivos, estava também curiosa em ver as soluções apresentadas por outros artistas ceramistas – outros, eheh! – para o mesmo tema e confesso que havia um pouco de tudo: trabalhos que gostei muito e outros que nem tanto. Enfim; o normal numa exposição colectiva, acho. Fiquei contente por participar e principalmente por ter sido seleccionada, mas não foi assim uma grande emoção quando vi o meu nome no cartaz dos artistas, ou no catálogo do Igespar – parece até que já sou batida neste tipo de coisas. O que me animaria agora, mesmo mesmo, era vender a dita peça, que muito trabalhinho e gozo me deu a fazer, mas que me irá ocupar um espaço precioso aqui na oficina (mas o melhor será tirar o cavalinho da chuva e começar já a arranjar uma prateleira para ela, que a época em que vivemos não está para estas coisas…)

EXPOSIÇÃO

Inserida nas Jornadas Europeias do Património, inaugurou no dia 24 de Setembro, a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea, «A estética da paixão», no Mosteiro de Alcobaça e onde está a minha peça «Paixão que consome», feita em barro refractário e porcelana. Até dia 23 de Outubro, espero ter um tempinho para lá ir…

MOSTEIRO DE ALCOBAÇA

Ontem fui ao Mosteiro de Alcobaça levar a minha peça para a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea que irá inaugurar a 24 de Setembro; o prazo de entrega terminava hoje, imagino que tanta antecedência seja para se ter tempo de fazer o catálogo. Confesso que fiquei um pouco preocupada quando a deixei lá empacotada no chão de uma sala, juntamente com outras que já ali estavam – aquelas pernas são muito frágeis e supostamente a peça vai ser manuseada algumas vezes, tanto para ser fotografada, como para depois ser exposta da forma que eu pedi. Enfim, espero que seja tudo gente cuidadosa; o melhor é tentar não pensar muito neste assunto.

SELECCIONADA!

MEMÓRIA CONCEPTUAL E JUSTIFICATIVA:

Peça quadrangular em barro refractário que contém um cone com uma figura humana no seu interior – Paixão que consome.

A escolha do barro refractário remete para o próprio edifício, para a arquitectura monumental em pedra.

A peça é uma caixa que simboliza a vida onde tudo cabe; os abertos e fechados das faces laterais são os seus alicerces; estacas colocadas meticulosamente cujo ritmo regular confere a ideia de estabilidade, tranquilidade, silêncio.

O cone central concâvo no interior da caixa é a paixão que se instala de repente e quebra a regularidade – o indivíduo entrega-se-lhe compulsivamente e deixa-se levar por um turbilhão ruidoso de sentimentos; os quais, reinando sobre a sua vontade, lhe vão consumindo a razão aos poucos, levando-o à perda da sua individualidade.

Ao ser engolido pelo remoinho que a sua própria tempestade bio-química gera, o indivíduo fica refém da paixão; o azul escuro, cor da profundidade e símbolo do infinito e a espiral branca, um sem-fim com a cor da pureza, mas também do isolamento e até mesmo da morte, sugam-no para o fundo, aprisionando-o dentro da caixa, cujas aberturas laterais remetem agora para as grades de uma prisão.