DOCUMENTAÇÃO DA OBRA

TÍTULO – Paixão que consome

DIMENSÕES – 26cm x 26cm x 18cm

PESO – 5,950 Kg

MATERIAIS UTILIZADOS – Barro refractário, porcelana e óxido de cobalto.

TÉCNICAS UTILIZADAS – Lastras, columbinas, incrustações e forma maciça escavada.

TIPO DE COZEDURA – Atmosfera oxidante, alto fogo – 1270ºC

AUTOR – Isabel Colher

 

PRONTINHA!

Dou por terminada a minha peça em barro refractário para a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea, que se irá realizar em Setembro no Mosteiro de Alcobaça, sob o tema «A estética da paixão / A paixão pela estética» – mesmo em cima do prazo! Quero enviar ainda hoje a documentação pedida: nome da obra, dimensões, peso, tipo de cozedura, técnicas e materiais utilizados e Memória conceptual e justificativa da peça. E ainda três fotografias. Até dia 30 tem de ser tudo enviado. Estou satisfeita com o resultado, apesar das perninhas que entortaram e que me conseguem deixar com um certo nervoso miudinho – vou mandar as fotos dos lados mais fotogénicos, a ver se a coisa passa… e a ver se me lembro também de fazer uma errata na memória conceptual; tipo, onde se lê «alicerces, estacas firmes colocadas meticulosamente…», leia-se «alicerces, estacas colocadas meticulosamente…» ou mesmo só «alicerces, estacas…», apesar daquilo, muito honestamente, agora me parecer umas franjas, mas isso já é demais e teria de mudar todo o texto e puxar muito pela cabeça. Bom, de qualquer modo, essa questão prende-se só com as minhas expectativas e quem não saiba, é como quem não vê, embora eu já esteja para aqui a fazer reparos a isto tudo; melhor seria era manter-me caladinha. E a zona interior correu bem, estou contente; resultou como eu queria… Na verdade, qual é o máximo que me pode acontecer? É não ser seleccionada. E isso não tem mal nenhum.

ATÉ AQUI TUDO BEM.

  Finalmente consegui virar para cima a minha peça de cerâmica, após quase três semanas na incógnita sobre o que se passaria do lado de dentro! A  primeira fornada correu muito bem – ao menos alguma coisa! – e pude constatar, com agrado, que o homem lá continua de braços abertos e com um sorriso de felicidade na cara; tem bom feitio, claro, fosse eu e não estaria tão contente. A incrustação de porcelana também parece ter aguentado, já tinha feito dois ou três testes de experiências, mas não estava muito segura quanto à coisa. De resto, tudo igual: o que já estava torto, torto continuou; bom teria sido ter-se endireitado pelas artes do fogo, mas assim não aconteceu e pelo menos não piorou… Acabei agora de aplicar o óxido de cobalto (que trabalheira!…) e a peça vai já directinha para o forno, agora sim, para cozer a alta temperatura. E até segunda não quero pensar mais neste assunto!

ENFORNADA!

Já está no forno a minha peça para a Exposição de Cerâmica, vai cozer esta noite. Tinha pensado fazer uma monocozedura; aplicava o óxido de cobalto com ela ainda crua e depois cozia tudo a alta temperatura de uma só vez, mas isto às vezes não corre bem como a gente quer, de modo que o melhor é fazer as coisas pelos tramites normais: enchacotá-la primeiro a 960º e então depois virá-la, dar-lhe o óxido e voltar a cozê-la; aí sim, a 1270º. Vou fazer uma fornada bastante lenta, talvez umas quatro horas só para chegar aos 200º, não vá o barro ainda não estar totalmente seco e assim prevenir algum azar… Bom e agora, figas, figas.

CONTAGEM DECRESCENTE

Continua a secar a minha peça em barro refractário e porcelana para a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea. O que eu mais receava aconteceu – as pernas estão todas empenadas, o que me irrita ligeiramente… Tivesse tido mais tempo e este problema teria sido contornado, tinha bastado tapá-las com um pano húmido enquanto todo o resto secava; mas agora paciência, é no que dão as pressas e eu até já sabia. Tenho ainda mais uns dias antes de a enfornar e ainda não estou segura que ela esteja bem seca, apesar do barro já estar com uma tonalidade muito mais clara do que no início. O homem, lá dentro, está há duas semanas de cabeça para baixo, espero que ainda não lhe tenha acontecido nada (o máximo que lhe pode ter acontecido é ter perdido aquele sorriso de felicidade que tinha na cara – o que é normal com qualquer pessoa face a tanta adversidade); nem me arrisco a virar a peça para cima antes de a cozer, estou com medo de partir as pernas, que nesta fase estão bastante frágeis e só de pensar que ainda as tenho de lixar e dar os acabamentos finais, fico logo a tremer, o que não ajuda nada, claro. Bom, o tempo continua a contar e agora é levar isto até ao fim; sempre se aprende mais qualquer coisinha.

SECAGEM

Começou a fase de secagem da minha peça; consegui colar a figura humana lá dentro mesmo in-extremis para a poder virar de novo ao contrário e tirar a cofragem da parte de trás, o que já não foi fácil – o barro já estava a retrair e ameaçava rachar nalguns pontos, mas depois de algum stress lá consegui fazer tudo sem partir nada. Acho… Agora é ir controlando a secagem, que convém ser lenta e homogénea, para que as paredes não empenem. O tempo está a meu favor, a oficina não está muito quente e começo a desconfiar que até poderia estar um pouco menos húmida, se quero enfornar no máximo daqui a três semanas… Bom, é ir ficando atenta e ver o que é que acontece.

NERVOSO MIUDINHO


Continuo a fazer a minha peça em contra-relógio; falta praticamente um mês para entregar toda a documentação para ver se sou seleccionada para a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea. Tenho de acabá-la o mais rapidamente possível se quero que a secagem se faça como deve ser –  uns quinze dias pelo menos e depois  faltam ainda as duas cozeduras previstas. De acordo com o tema, «A estética da paixão, a paixão pela estética» e com a minha memória conceptual e justificativa, comecei  hoje a modelar a figura que vai estar lá dentro, espero terminá-la amanhã para a poder colar no fundo do remoinho. Começo a entrar ligeiramente na fase do nervoso miudinho, em que quero despachar tudo depressa mas para as coisas saírem bem, tudo tem de ser feito com calma e muito lentamente. Enfim, paciência, muita paciência…

PORCELANA

Nem ontem nem hoje fui para o 88, tenho de estar aqui na oficina para ir fazendo a minha peça que está num ponto crítico. Ontem resolvi construir uma cofragem em cartão duro para a conseguir virar ao contrário; as pernas são demasiado altas e estreitas e foi a melhor solução se não quero que haja azares – que ainda podem acontecer.  Tenho de me apressar a trabalhar o interior, que na verdade é o que vai ser o exterior. Estive a fazer uma incrustação com porcelana, que segundo os testes que fiz anteriormente, irá cozer à mesma temperatura que o barro refractário, a cerca de 1250ºC. Provavelmente irá estalar nalguns pontos, os coeficientes de retracção das duas pastas são diferentes, mas tudo bem, vai ser assumido assim.

MUITO PELA FRENTE

Lá segue a construção da minha peça em cerâmica para a exposição no Mosteiro de Alcobaça; já se vê qualquer coisa. A peça é um bocado complexa e tenho de estar atenta à secagem do barro: se por um lado tem de estar suficientemente seco para se poder trabalhar; por outro, tem de estar suficientemente húmido para se poder trabalhar… Tenho diferentes espessuras de paredes e todas têm de estar no mesmo ponto, para que não empenem nem partam. Enfim, um processo moroso; o que eu aliás já sabia, mas que nesta altura do campeonato não dá jeito nenhum. Se quero ser seleccionada, tenho de entregar até ao fim de Junho toda a documentação relativa à peça, incluindo 3 imagens: título e dimensões da obra; peso; materiais e técnica de realização; autor e memória conceptual e justificativa. Posso dizer que nesta altura já tenho um terço de todo o trabalho feito, mas ainda tenho muito pela frente!

PARALELIPÍPEDO!?

Segundo o regulamento para a aceitação das peças na Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea, cada obra não deve pesar mais do que quinze quilos. Como o meu projecto tem estado apenas na minha cabeça durante estes dois meses em que não lhe consegui pegar, só ontem me apercebi, quando meti mãos-à-obra, o quão irreal ele era: uma peça para colocação vertical, quadrangular, com cerca de 50×50 cm de largura e cerca de 15 cm de altura. E grossa; pelo menos dois cm de espessura. Claro que bastou-me desenhar a planta à escala 1:1 para perceber que não iria ser possível executá-la nestes moldes; primeiro porque nem sequer tinha barro suficiente para tal e segundo, logo assim à vista desarmada, a peça iria pesar uns 30 kg! Para além de outras questões várias de execução, algumas um pouco complexas… Bom, felizmente tenho a capacidade de reformular uma ideia rapidamente e, pegando exactamente no mesmo projecto, consegui transformá-la numa peça de colocação horizontal, quadrangular, com cerca de 25×25 cm de largura e cerca de 18 cm de altura – é a vantagem dos paralelipípedos.