Em Março inscrevi-me para uma Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea que se irá realizar em Setembro no Mosteiro de Alcobaça, a propósito das comemorações do episódio histórico de D. Pedro e D. Inês de Castro. A exposição está subordinada ao tema «A estética da paixão / A paixão pela estética» e à primeira vista foi coisa que não me interessou. No entanto o meu subconsciente, que é tramado, ficou a pensar no assunto e umas horas depois as primeiras ideias para uma peça começavam a ganhar forma. Nessa noite quase não dormi, a minha cabeça estava a mil e na seguinte também não. Resultado: dois dias depois já sabia o que é que ía fazer e mentalmente só me faltava contornar algumas questões técnicas de execução. Na altura estava eu cheia de tempo e até ao final de Junho, o prazo para a entrega da documentação aos promotores do evento, faltavam ainda três meses. Depois apareceu o 88 e a intervenção nos 6300 azulejos, ao fim de mais de dois anos à espera. Agora, para Junho faltam só duas semanas, o que quer dizer que tenho de me despachar com o projecto, com a memória conceptual e claro, com a manufactura da dita peça. Que já está em andamento!
Categoria: CERÂMICA
SEARCHERS
Hoje de manhã vim para a oficina, o que já não acontecia há quase dois meses. Há várias coisas que foram interrompidas quando comecei o trabalho do 88, confesso que naquela altura até pensei «Oh não!… um trabalho de restauro agora? Então e as minhas ricas peças em cerâmica, das quais eu não tiro um tusto e que eu ía tão entusiasmada?», mas rapidamente tive de fazer a agulha para ali, que ganhar dinheirinho é que tem de ser, principalmente depois do marasmo do ano passado. Bom, agora tenho de pegar no trabalho onde o deixei ficar, já nem sei bem onde era; esta adaptação, assim de repente, dá-me um bocado de jet lag. E assim, ao som de Searchers, do Amon Tobin – o que até tem a ver com o tema -, tento meter as ideias em ordem.
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ÚLTIMOS PREPARATIVOS
No próximo sábado vou participar no Mercado de Texturas e Cores, promovido pela Biblioteca Camões no âmbito das comemorações do Dia Mundial da Poesia. Como a obra lá no 88 está a decorrer sem grandes percalços – se exceptuarmos o facto de ontem ter havido uma inundação pela escadaria abaixo -, hoje vou ficar a fazer serão aqui na oficina para ultimar as coisas que quero levar: preparar os meus cartões pessoais, vidrar e enfornar mais algumas tacinhas e placas relevadas e colar alfinetes nas pregadeiras. A sorte é que vou ter uma banquinha mínima, pois tenho pouco material e assim ela fica cheia facilmente. Estou animada, o evento é giro e o lugar não podia ser melhor; mesmo que venda pouco sempre divulgo o meu trabalho. E esperemos que não chova.
DUAS MÃOZINHAS
Não tem sido fácil conjugar o início do trabalho de restauro dos azulejos do prédio nº 88 com as minhas peças; o tempo aqui na oficina tem sido pouco e sempre a ser interrompido. No dia 26 vou participar numa feirinha na Biblioteca Camões e quero levar algum material, claro; não que conte vender muito, mas pelo menos para mostrar o trabalho e dar cartões. Hoje fiz duas mãozinhas, para o pequeno conjunto das pregadeiras em faiança – acho-lhes uma certa piada. São duas mãozinhas direitas, o que me dava imenso jeito aqui para trabalhar, mas estas, por enquanto ainda não fazem nada, estão só à espera de irem para o forno.
ALGO COMPLETAMENTE DIFERENTE!
Alguma vez tinha de me acontecer: fazer aquilo que eu tinha dito para mim mesma que nunca iria fazer! – e estou a falar estritamente da minha produção cerâmica. Quando há uns tempos reciclei um bocado de barro branco, era já no sentido de fazer estas peças em faiança, completamente diferentes do meu trabalho até agora e que tenciono adaptar a alfinetes de peito, também conhecidos por pregadeiras ou, como diria a minha avó, broches. Confesso que não me apetecia muito cair nesta onda do berloque, mas a verdade é que os berloques vão-se sempre vendendo e portanto decidi também tentar a minha sorte. Tal como nas peças que fiz para a feira setecentista, das Séries «Fragmentos», mais uma vez a azulejaria tradicional portuguesa foi a minha fonte de inspiração e é visível que o meu lado de restauradora de azulejos se manifesta fortemente. Estas são as primeiras que pintei, ainda a título experimental, sempre quero ver se resultam…
TEMPO LIVRE
Esta semana não vou para o 88. Isto é, não vou trabalhar para lá, apesar de ainda não ter parado de tratar de assuntos que têm a ver com a obra de restauro dos azulejos e que ainda vão continuar: comprar e descarregar materiais, encomendar caixas de cartão, fazer seguros e marcar consultas de medicina do trabalho para toda a equipa (esta não estava à espera!), ir à segurança social, mandar mails, receber mails e telefonemas, telefonemas e mais telefonemas. No meio disto tudo, o mais engraçado foi ter pensado que iria ter este tempo livre aqui na oficina para fazer mais umas peças da minha pequena produção cerâmica e que estava tão lançada. Hoje lá consegui vidrar e pintar as novas placas relevadas que fiz para a série «É o mar que nos chama», que ainda estão em fase experimental, mas que estou ansiosa para ver como ficam.
A MIL…
Hoje vou fazer uma fornada de vidrados, quero ver se estas peças ficam prontas para as levar à loja na próxima semana. Com tanta coisa que ando a fazer ao mesmo tempo, começo a ficar baralhada com isto tudo; tenho peças a secar para enchacotar a 970º e outras a 1040º; por outro lado, tenho vidrados para cozer a 1020º e outros a 1240º. Isto para não falar nas experiências de barro pigmentado com diferentes percentagens de óxidos, nem nas tacinhas que estou a modelar. E mais os orçamentos que tenho para fazer pelo meio disto tudo, sem me enganar e que me roubam algum tempo. Os frasquinhos com experiências de vidrados desmultiplicaram-se rapidamente e uns servem para uma coisa e outros para outra, mas como estão bem identificados, não há margem para confusões – espero eu. Tenho pressa em ver resultados; ando entusiasmada, mas estes processos demoram o seu tempo e as semanas passam demasiado rápido. E o forno demora um dia até eu poder ver o que se passou lá dentro. Ufa!… Estou cansada…
PASSADO / PRESENTE
Tenho pena de não ter conhecido melhor o meu avô Henrique; morreu no dia em que eu fiz cinco anos. Sendo carpinteiro, foi dele que o meu pai herdou uma série de ferramentas lindas, entre as quais este compasso e este esquadro, que eu trouxe ontem emprestados e que muito jeito me vão dar para eu fazer uma peça grande que já tenho aqui na ideia. Fico contente por lhes dar uso e assim, continuidade à memória do meu avô. É engraçado ver como estas ferramentas tão antigas se complementam com a minha nova balança digital, todas com igual importância na elaboração do mesmo trabalho e cumprindo cada uma com o mesmo rigor a função para a qual foi feita.
OHAUS
Estou super-contente! Ontem comprei finalmente uma coisa que há muitos – muitos! – anos queria ter: uma balança de precisão, com sensibilidade até aos centésimos de grama. Caramba, nem era preciso tanto, décimos chegavam perfeitamente… E agora sim, isto é que vai ser fazer recitas de vidrados com algum rigor! É que, quando se trata de óxidos, meio grama pode fazer muita diferença, alguns são extremamente fortes! Bem sei que nisto das experiências há sempre muito desperdício de material; mas por que estar a usar 300g de vidrado base para conseguir pesar uns míseros 3g de óxido de cobalto, que corresponde a 1%? E isto é quando a balança que cá temos consegue pesar 3g, porque às vezes fica ali parada nos 2 e eu a deitar pitadinhas atrás de pitadinhas, com muito cuidadinho… e aquilo nem sequer mexe; até que de repente!, pumba, salta directamente para os 5g!… (É claro que aqui sai o meu vernáculo pessoal). Mas hoje até já consegui pesar 0,5g de óxido de cobre e a partir daqui é só dar largas à imaginação.








