LATITUDE, LONGITUDE

Há já algum tempo que ando a matutar em relógios solares. As minhas noções de astronomia ficaram quase pelo que aprendi na primária e também pela ultima visita que fiz ao Planetário, tinha eu, já nem sei; aí uns sete ou oito anos. A trigonometria, mais tarde, ainda me deu alguma água pela barba, apesar de eu lá me ter safado menos mal e o trânsito do Sol não me dizia nada até há bem pouco tempo. Acho que nunca tinha pensado muito sobre isto; até agora limitei-me em ser só uma curiosa que assiste aos eclipses solares, espreita por telescópios alheios, sabe quando são os solstícios e os equinócios e gosta especialmente de cromeleques.

Aproveitei o mês de Agosto em plena natureza para ler quase todo o livro sobre Relógios de Sol, supostamente esgotado nos CTT e que afinal o meu pai tinha em casa. Ainda abordei um outro, Sundials, que o meu tio Raul, um apaixonado por estas coisas, mandou vir de propósito para mim, mas é super-técnico e ainda por cima está em inglês, de modo que a coisa é mais difícil… Felizmente também existe a net e depois de uma quanta pesquisa e leitura para complementar o que entretanto aprendi, desenhei hoje o meu primeiro mostrador de um relógio solar, rigoroso qb para ser usado na região de Lisboa. Latitude 38.709º, Longitude 9.168º.

PAUSA

Estou contente. Decidi fazer uma pausa na manufactura das chacotas, antes de ficar maluquinha de todo. Passo muitas horas sózinha aqui na oficina, o que até nem me desagrada, – gosto de trabalhar em silêncio quando estou concentrada. Mas, de vez em quando, trocar umas impressões com alguém; tirar dúvidas sobre o meu trabalho, rir um bom bocado; faz-me bem e eu preciso. Assim e antes que este espaço se torne um diário delirante da minha imaginação, resolvi canalizar a minha criatividade para o bom caminho e parar de fazer sempre a mesma coisa de enfiada. Até porque não há pressa. Se eu fizer dez chacotas por dia, no fim desta semana terei todas as que preciso. E consigo avançar com a cerâmica. Portanto… Estou com ideias para peças novas, mas antes de mais e para que não me esqueça, fiz já mais três placas relevadas para a Série Horto, para concluir o conjunto de sete que eu tinha pensado. Estas são os protótipos, em barro vermelho, para execução de moldes.

Todos os dias arranjo uma desculpa para não ir bater a portas de lojas. Com este pretexto, hoje estive também a actualizar a minha página de cerâmica, que agora já tem também as fotos das peças que eu levei para a Feira Setecentista e às quais chamei Série Fragmentos.

TUDO ARRUMADINHO!

Lá consegui arranjar um armário aqui na oficina para arrumar as minhas peças de cerâmica. Isto é tudo muito giro, mas o mal destas coisas, se não as despachamos para qualquer lado, é que ocupam espaço. E aqui, apesar da oficina ser grande, o espaço está a escassear. Acho que está a chegar a hora de eu ir fazer aquilo que tenho andado a adiar já há algum tempo; ou seja, meter-me nas minhas tamanquinhas e ir bater a algumas portas de lojas que possam estar interessadas nas minhas peças. Pânico! Não tenho jeito nenhum para estas coisas e, pior, sou péssima para o negócio! Por mim continuava eternamente a fazer peças e mais peças e depois elas tratavam de ir à sua vidinha e mandavam-me o dinheiro para casa, tipo emigrantes longe da família…

DE VOLTA À OFICINA!

Cá estou! De volta à oficina, depois de um mês inteirinho sem pensar em cerâmica, nem restauro, nem feiras, nem blogs, nem net! Bom, confesso… pensei um bocadinho em cerâmica; li umas coisas que me interessavam para umas peças futuras, mas despreocupadamente, que é para isso que servem as férias: limpar a cabeça e pôr alguma leitura em dia.

Agora, de volta à oficina e com a cabeça limpa, tenho de recomeçar do zero. Isto aqui está um bocado caótico; tudo desarrumado e eu, que até sou uma rapariga organizadinha, assim não me oriento. Antes de começar a fazer seja o que for, primeiro tenho de arrumar e limpar tudo! Assim uma coisa do género «ano novo, vida nova!». Tenho uma data de peças que me sobraram das feiras e que despejei, literalmente, no meio da sala; depois, caixotes e caixotinhos com fragmentos de azulejos que não há meio de saírem daqui e só ocupam espaço; os moldes aparecem por todo o lado, o suporte da rebarbadora insiste em não sair do caminho, a mesa de trabalho está cheia de tralha variada e o pó!, uf!… esse instalou-se por todo o lado e só vai desaparecer com uma barrela das grandes!

Bom… mãos-à-obra. (Não me apetece nada, mas lá terá de ser!).

FEIRA SETECENTISTA DE QUELUZ

30, 31 de Julho e 1 de Agosto de 2010.

Já está! Muito gira, esta feira! Gostei. Bem organizada, com bancas com produtos diferentes, seleccionados à época (embora haja sempre uns desvios, claro, mas não muitos…) e animação histórica bem feita e engraçada. A organização teve o cuidado de fornecer roupa aos comerciantes e artesãos, de modo que tudo estava bem unificado. A mim trataram de me dar uma touca, mais setecentista, uma vez que a outra que eu tinha era demasiado medieval.

As novas peças tiveram um certo sucesso e, tal como eu imaginava, os turistas terão de ser o meu público prioritário. A minha amiga Jule, que é alemã e vai agora de volta para Berlim, levou um dos pratinhos para oferecer aos pais, dizendo-me que as minhas peças «são Lisboa». As taças altas foram logo vendidas, uma a um casal francês e as outras duas a um senhor alemão, que ainda me comprou mais uma das outras taças medievais e duas tacinhas pequenas. O meu melhor cliente, portanto, até agora. «Isto, muito bom!», foi o que ele me disse. Fiquei toda babada, claro está!

De resto, ainda não percebi bem se quero continuar a fazer feiras ou não. Tem o lado simpático e divertido de se conhecer pessoas e receber dinheiro imediato; por outro, está-se muitas horas a olhar para ontem, em que não se passa nada. Tenho de pensar nesta questão e também tratar de encontrar duas ou três lojas específicas onde faça sentido colocar as minhas peças… Mas para já, estou muito cansada e preciso de uns dias para ficar de papo para o ar!… Ufa!…

LINHA SETECENTISTA

Estas são as primeiras amostras das minhas peças da linha Setecentista. Enfim, dizer «linha» nesta fase talvez seja um pouco exagerado; «segmento de recta», para já, está mais apropriado… Tal como eu receava, duas das taças altas saíram mal e também dois solitários. Vão ter que ficar aqui na oficina, a contribuir para o resto de entulho que cá guardamos, à espera que um dia se faça alguma coisa com ele. Mas apesar de tudo, estou satisfeita. Gosto especialmente das peças com as letras e acho que percebi o que correu mal … Apesar de não estarem perfeitas, levo todas as outras já hoje para a Feira Setecentista de Queluz (a propósito, arranjaram-me uma banca deles!), sempre são cinco pratinhos, quatro solitários e três taças altas. Juntando ao resto das peças que me sobraram das outras feiras, acho que vou ter uma banca compostinha! Agora, mais uma vez, é carregar tudo para o carro e depois descarregar tudo na feira, esperando não destilar com esta caloraça… Lá vou!

OLHOS EM BICO!

Estou com os olhos em bico! Hoje estive a vidrar e a pintar as novas peças. É o ultimo dia que tenho para ainda as enfornar e conseguir levá-las a tempo para a Feira Setecentista de Queluz depois de amanhã. Continuo com medo deste processo, não estou segura com os vidrados e muito menos com o branco, que por várias vezes já me saiu mal. O problema é que em cruas parecem sempre bem e só depois é que se vêem os resultados… E isto de estar a pintar coisinhas morosas à pressa não dá; se bem que pequenos defeitos de fabrico até darem graça às peças e terem também a ver com a época. Mas pronto, já estão terminadas! Umas mais inspiradas do que outras, claro, mas há gostos para tudo… – e é o que me vale!

NÃO ERA BEM ISTO…

Acabei de abrir o forno, ainda a 100ºC. Deixei as minhas peças a cozerem no domingo à noite, parece que nenhuma se partiu, o que era o meu medo. De qualquer forma, deu já para perceber que este barro fica com um aspecto final diferente do outro que eu costumo trabalhar, tem uma cor diferente, mais avermelhada… E não era bem isto que eu queria…. É o que dá trabalhar à pressa, sem ter tempo para experiências. Por outro lado, tem a ver só com as minhas expectativas, quem não saiba… Bom, agora não há nada a fazer, a fornada foi igual às outras, com as mesmas temperaturas e o melhor é vidrá-las e pintá-las como tinha pensado e ver o que é que dá…

FRAGMENTOS

Ando à procura de motivos para pintar nas minhas novas peças. A ideia é que elas fiquem com um ar de que foram arrancadas e esculpidas de pedaços de uma parede onde existiram azulejos. Vou utilizar partes de desenhos que sejam facilmente reconhecíveis como pertencentes à azulejaria do séc. XVIII. O azul e branco ajuda, claro. Livros não faltam aqui na oficina e desenhos já picotados, que usei nas réplicas para intervenções de restauro, também não. E cacaria, nem se fala; temos pilhas de fragmentos que vão ficando de trabalhos e que guardamos religiosamente, nem sei bem para quê.

TEMPO CONTADO

Fiz cinco pratinhos e cinco taças altas novas. E ainda mais seis solitários. Este barro é novo, tem chamote mais fina, não sei bem como vai resultar, mas não havia o que eu costumo trabalhar. Por um lado, talvez até seja melhor, pois quero pintar os motivos como se fossem fragmentos de azulejos ou faiança e o grão mais fino facilita. Já tenho esta ideia há muito tempo, para possíveis peças para pôr à venda no Museu do Azulejo. Tenho o tempo contado, se as quiser levar à Feira Setecentista, no fim da próxima semana e ainda falta quase tudo: secar, lixar, cozer, vidrar e pintar, cozer novamente. Acho que vou ter de acelerar o processo nalguma fase…